contos de fadas

História de Edmund Leamy

A fama da árvore mágica se espalhou muito rápido, e todos os dias chegava um aventureiro para tentar levar embora alguns dos frutos. Mas o gigante, como prometeu, estava sempre alerta, e nem um dia se passava sem que ele lutasse e matasse um invasor ousado.

Próximo dali, na terra dos homens, um rei cruel governava. Ele era um usurpador, havia assassinado o verdadeiro rei e muitos de seus leais súditos. Todos o odiavam, mas também o temiam.

O rei legítimo tinha dois filhos, um rapaz, chamado Niall, que foi deportado para terras estrangeiras e uma moça chamada Rosaleen que, por ordem do rei, havia sido enfeitiçada e se transformado no ser mais feio e repugnante. Ela vivia escondida em um celeiro, perto do castelo e era alimentada pelos servos do rei. Sua prisão era a sua aparência, já que ela não saía por medo da reação das pessoas à sua feiura.

Um dia, Rosaleen estava muito triste, chorando pela solidão e por tudo que lhe tinha acontecido, quando um pequeno pássaro Pintarroxo pousou à sua frente para pegar as migalhas do pão que ela havia comido. Ele era tão dócil que subiu em sua mão para comer mais. Rosaleen se sentiu feliz porque havia um ser que não a rejeitava e nem sentia repulsa por sua aparência.

Desde esse dia, o pequeno Pintarroxo a visitava todos os dias, ele cantava para ela e sua solidão não doía tanto quanto antes. Ela conversava com ele e contava todas as suas infelicidades.

Um dia, quando a moça chorava, o pássaro apareceu e pousou no seu ombro para consolá-la. O que Rosaleen não podia imaginar era que esse pequenino poderia fazer muito por ela.

Ele sabia tudo sobre a frutinha mágica da Floresta de Dooros que era guardada pelo gigante.

O Pintarroxo procurou seu primo Robin que morava na floresta e pediu a sua ajuda.

– Você quer um pouco dos frutos mágicos, imagino – disse Robin.

– Quero!

– Ah, as coisas estão bem difíceis agora. O gigante ranzinza guarda a arvorezinha dia e noite. Só há uma chance possível, mas pode custar a sua vida.

– Então, me diga o que é, pois eu daria cem vidas por Rosaleen — disse o pintarroxo.

– Bem, todos os dias, aparece algum guerreiro para lutar com o gigante, quando ele estiver lutando será o momento de roubar uma frutinha, mas se ele perceber você estará morto.

– Vou correr o risco — disse o pintarroxo de Rosaleen.

– Muito bem!

Os dois voaram até à Floresta de Dooros e pararam em um galho próximo da arvorezinha mágica. Neste momento o gigante estava sentado comendo os frutinhos vermelhos. Pouco tempo depois apareceu um guerreiro para desafiá-lo. O gigante ficou em pé e começou a atacar o invasor.

O pintarroxo pousou em uma árvore atrás do gigante, observando e esperando sua chance.

Por fim, o gigante, com um golpe muito forte, derrubou o guerreiro, enquanto o Pintarroxo partia na direção da árvore como um raio e conseguiu pegar um dos frutos. Então, o mais rápido que pode voou em direção ao celeiro onde Rosaleen estava escondida.

No caminho passou por uma tropa de guerreiros em cavalos brancos como neve. Todos os cavaleiros usavam capacetes prateados e mantos brilhantes de seda verde, presos por broches de ouro vermelho, exceto um deles, que parecia ser o líder, seguia a frente e usava um capacete dourado.

Quando o pintarroxo chegou ao celeiro, a princesa estava sentada do lado de fora, lamentando o seu destino. O pequeno pousou em seu ombro e colocou o fruto em seus lábios. O gosto era tão delicioso que a moça o comeu imediatamente. Assim, o feitiço da bruxa foi quebrado e ela voltou a ser bela novamente, assim como era antes.

Rosaleen ficou tão feliz que resolveu ir até o castelo que há tanto tempo ela não via. Quando estava em frente aos portões, os guerreiros nos cavalos brancos como neve se aproximaram, o líder, com capacete dourado, saltou do cavalo e se ajoelhou à sua frente, dizendo:

– Mais linda de todas as moças, certamente a senhorita é a princesa deste reino, apesar de estar fora dos portões do palácio, sem uma corte, sem roupas da realeza. Sou o Príncipe dos Vales Ensolarados.

– Sou filha de um rei, sim, mas não do rei usurpador que agora governa.

Dizendo isso, ela correu, deixando o príncipe se perguntando quem ela podia ser. Ele, então, mandou os tocadores de trombeta avisarem sobre sua presença do lado de fora do palácio, e em poucos instantes, o rei e todos os nobres foram cumprimentá-lo e aos seus guerreiros, dar a eles as boas-vindas.

Naquela noite, um grande banquete foi organizado no salão, e o Príncipe dos Vales Ensolarados se sentou ao lado do rei, e ao lado do príncipe sentou-se a filha do rei.

Durante o banquete, o príncipe falou de modo educado com a adorável moça, mas, durante todo o tempo, só pensava na bela desconhecida que tinha visto do lado de fora do palácio, e seu coração desejava vê-la de novo.

Quando o banquete terminou, o rei perguntou ao príncipe o que o levava àquelas paragens.

– Venho à procura de uma noiva, pois me foi dito, em minha terra, que apenas aqui eu encontraria a moça que está destinada a dividir comigo o meu trono, o seu reino é famoso por ser o local onde moram as moças mais adoráveis do mundo todo, eu acredito muito nisso depois do que vi hoje.

Quando a filha do rei ouviu isso, ela abaixou a cabeça e corou como uma rosa, pensando que o príncipe se referia apenas a ela, pois não sabia que ele tinha visto Rosaleen e sabia o quanto a verdadeira princesa era linda, depois da recuperação de sua beleza.

Antes que outra palavra pudesse ser dita todos ouviram um grande barulho na entrada do palácio. O rei e seus convidados se levantaram, os soldados empunharam suas espadas e começaram a ouvir vozes de gritos que se aproximavam.

Então entrou no salão um guerreiro e todos o reconheceram como o filho do verdadeiro rei que havia sido assassinado.

– Voltei para assumir o trono de meu pai! — disse  Niall!

– Vida longa à Niall! — responderam todos.

O rei, pálido de ira e surpresa, virou-se para os líderes e nobres de sua corte e gritou:

– Não há nenhum homem leal o suficiente para mandar embora esse invasor de nosso banquete?

Mas, ninguém se mexeu, nenhuma resposta foi dada. Então, o rei avançou sozinho, mas antes que pudesse chegar ao ponto em que Niall estava de pé, foi segurado por uma dezena de homens e desarmado de uma só vez.

Neste momento Rosaleen entrou no salão e todos ficaram encantados e felizes por ela estar livre do feitiço. Niall a reconheceu e eles se abraçaram e choraram por novamente se reencontrarem.

O usurpador foi preso junto com sua família e Niall contou a todos as suas aventuras. Quando o Príncipe do Vale Ensolarado viu Rosaleen foi ao seu encontro e pediu a Niall que concedesse a sua irmã em casamento.

Em sua felicidade, ela não se esqueceu do pequeno Pintarroxo que foi seu amigo na tristeza. Ela o levou para casa consigo, em Vales Ensolarados, e todos os dias o alimentava com suas mãos. E todos os dias ele cantava as músicas mais doces que já tinham sido ouvidas por uma princesa.

***

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História de Edmund Leamy

Certa vez, os seres mágicos foram aos lagos para disputar uma partida de Hurling, um tipo de jogo de arremesso, com as fadas. Eles ganharam a partida e voltavam para a Floresta Mágica muito felizes com a vitória. No caminho resolveram parar para descansar na Floresta de Dooros, pois ainda tinham um caminho muito longo pela frente.

Na Floresta de Dooros, fizeram uma grande festa no acampamento, comendo, bebendo e dançando em volta da fogueira.

Os seres mágicos se banqueteavam com frutinhas vermelhas mágicas, que eram muito parecidas com as frutinhas vermelhas de outros lugares, mas estas tinham poderes extraordinários. Caso um idoso comesse uma delas, se tornaria jovem e forte novamente. Se uma idosa enrugada comesse uma frutinha se tornaria uma jovem, bela como uma flor que acabou de desabrochar. Caso uma pessoa muito feia comesse essa frutinha, imediatamente se tornaria a mais bela de todas as pessoas.

Por essa razão, os seres mágicos guardavam as frutinhas com muito cuidado, como se fosse ouro, somente eles poderiam desfrutar de seus poderes.

Sempre que saiam da Floresta Mágica tinham que prometer ao rei e à rainha que não dariam a fruta para qualquer ser mortal e nem permitiriam que nenhuma delas caísse por terra, pelo perigo de que uma árvore da fruta nascesse fora da Floresta Mágica.

Porém, nessa noite de festa e muita bebedeira, Pinkeen, um excelente músico, que sabia tocar qualquer instrumento e era muito querido por todos, deixou cair uma das frutinhas na floresta sem perceber.

No dia seguinte os seres mágicos voltaram para casa e, somente quando chegou, Pinkeen percebeu o terrível erro que havia cometido. Ele ficou com muito medo das consequências de seu ato e resolveu ficar quietinho sobre o assunto.

Mas como nada pode ficar escondido para sempre, um dia, a rainha mandou alguns dos seres mágicos para a Floresta de Dooros para caçar borboletas, lá eram encontradas as mais belas do mundo. Ela queria muitas borboletas para enfeitar o salão de festas de um casamento que aconteceria em breve.

Quando os seres mágicos estavam cumprindo as ordens da rainha, encontraram uma arvorezinha onde centenas de borboletas estavam pousadas. Para a grande surpresa deles, era um pé das frutinhas vermelhas mágicas.

Os seres mágicos voltaram para o castelo com as borboletas e rapidamente foram contar ao rei e à rainha o que haviam descoberto.

O rei ficou muito bravo e mandou seus escudeiros aos quatro cantos da terra mágica para reunir todos os súditos à sua frente, ele queria descobrir quem era o culpado.

Todos eles compareceram, exceto Pinkeen, ele ficou apavorado e com medo de ser descoberto pelo seu erro. Mas, como ele foi o único que não compareceu, entenderam que era por ser ele o responsável pelo problema. Então o rei mandou seus mensageiros à sua procura.

Eles procuraram e, depois de um tempo, o encontraram escondido em uma samambaia. Então o levaram ao rei.

O pobre rapaz estava tão assustado que a princípio, mal conseguia falar, mas, depois de um tempo, admitiu sua culpa.

O rei, que não queria saber de desculpas, a arvorezinha não poderia ser cortada, então sentenciou que o culpado deveria ser levado para a terra dos gigantes, que ficava além das montanhas, e ali viver para sempre, a menos que conseguisse encontrar um gigante disposto a ir para a Floresta de Dooros para guardar a árvore mágica.

Quando o rei determinou a sentença, todo mundo ficou triste porque o réu era muito querido por eles.

A rainha mandou seu principal mensageiro entregar-lhe um punhado de frutinhas. Ela disse que ele deveria oferecê-las ao gigante, e prometer que, se ele estivesse disposto a proteger a árvore, poderia se esbaldar com as frutinhas.

Pinkeen seguiu caminhando dia e noite e, quando o sol nasceu, chegou ao topo da montanha e pode ver a terra dos gigantes no vale que se estendia bem à sua frente.

Antes de começar a descer, ele se virou para olhar para a terra mágica uma última vez. Ele estava muito triste e cansado, então resolveu descansar um pouco antes de prosseguir a viagem.

Quando acordou, o chão estava tremendo e ele ouviu um barulho que parecia um trovão. Ao olhar para cima, viu um gigante assustador já sobre ele. Esse gigante era o mais mal-humorado de toda a terra dos gigantes, todos o chamavam de Sharvan, o Ranzinza.

Quando o homenzarrão viu a capa vermelha do ser mágico, deu um grito. O pobre rapazinho tremeu da cabeça aos pés.

– O que o faz aqui? — perguntou o gigante.

– Por favor, Sr. Gigante, o rei dos seres mágicos me baniu para cá, e aqui devo ficar para sempre, a menos que o senhor vá guardar a árvore dos seres mágicos na Floresta de Dooros.

– A menos que o quê? — bufou o gigante

Então ele derrubou Pinkeen no chão e ia chutá-lo quando o pequeno falou.

– Você poderá comer todas as frutinhas mágicas que quiser!

– Como? – perguntou o gigante.

– Sim, se aceitar ir até à Floresta de Dooros e lá ficar guardando a arvorezinha poderá comer todas as frutinhas mágicas que quiser.

Então Pinkeen deu a Sharvan um punhado das frutinhas para que ele as comesse. O gigante, imediatamente, se sentiu tão feliz que começou a gritar e dançar de alegria.

Os seus gritos chamaram a atenção dos outros gigantes que correram para ver o que estava acontecendo.

Quando Sharvan os viu chegar, pegou Pinkeen e o colocou dentro do bolso, para que não o vissem.

– Por que você está gritando? — perguntaram seus companheiros.

– Porque aquela pedra ali caiu no meu dedão.

– Seu grito não parecia o grito de um homem ferido — disseram eles.

– Como você pode saber o jeito com que gritei? — perguntou ele.

– Não sei, vamos embora!!!

Assim que os gigantes se foram, Sharvan falou:

– Muito bem, vamos.

Em pouco tempo eles chegaram ao topo da montanha e de longe viram a terra mágica. Quando chegaram na fronteira, os pés do gigante se prenderam ao chão e ele não pode dar nem mais um passo adiante. O gigante começou a gritar desesperado e seus gritos foram ouvidos por toda a Floresta Mágica.

– Ah, por favor, Sr. Gigante, deixe-me sair do seu bolso – disse Pinkeen.

Sharvan o pegou e colocou no chão. Pinkeen correu com todas as suas forças para chegar ao castelo.

Os seres mágicos estavam tão felizes por terem Pinkeen de volta, que o carregaram em seus ombros e o levaram ao palácio do rei.

Então Pinkeen disse às majestades que trouxera consigo um gigante disposto a guardar a árvore mágica.

– E quem ele é, onde está? — perguntou o rei.

– Os outros gigantes o chamavam de Sharvan, o Rabugento, ele está preso na fronteira da terra mágica.

Em seguida, o rei ordenou que um de seus servos fosse até onde estava o gigante para libertá-lo e depois o acompanhasse até à arvorezinha na Floresta de Dooros. Os gigantes não podiam entrar na Floresta Mágica.

Quando chegaram à árvore, o gigante encheu as mãos de frutinhas vermelhas, as comeu e ficou de bom humor novamente.

A segunda parte da história será publicada amanhã.

***

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História de Edmund Leamy

Há muitos anos, havia uma cabana em um local descampado e isolado, nela viviam uma senhora e uma moça. A senhora era amargurada e ignorante, a menina era doce, bonita e seu nome era Finola.

A cabana era feita de galhos entrelaçados e parecia uma colmeia, no centro havia uma fogueira que queimava o ano todo, mesmo sem ser cuidada por ninguém, no inverno mantinha tudo quente e no verão somente irradiava luz.

Finola era uma princesa, mas não sabia disso.

Fora da casa, tudo era desolado e triste, por quilômetros não cresciam árvores, flores e não havia nenhum sinal de qualquer ser vivo.

A única outra pessoa que Finola via, além da senhora, era um anão mudo que, montado em um cavalo capenga, ia uma vez por mês à casinha, levar suprimentos às duas.

A moça sempre ficava muito feliz quando o anão a visitava apesar de não conseguir conversar com ele.

O anão amava a princesa mais do que tudo e morreria por ela se fosse preciso.

Certa vez, logo após fazer uma visita às duas, quando voltava, foi surpreendido por uma voz dizendo:

– Está na hora de você ir.

O anão então viu que bem à sua frente havia um homenzinho, com metade da sua altura, vestido com um casaco verde e capuz e botas vermelhas.

— Está na hora de você ir – disse novamente – desça do cavalo e venha comigo.

O anão fez o que o homenzinho mandou e o seguiu até a um buraco, na encosta de um monte.

O buraco era tão pequeno que ele teve que se espremer para passar, depois, já dentro da caverna, percebeu que estava do mesmo tamanho do pequeno duende. Andaram um pouco e chegaram a uma esplêndida sala, clara como o dia.

– Puxe uma cadeira e se sente, vou pedir a varinha mágica, então você poderá falar novamente – disse o duende.

O anão se sentou e o duende tocou um sininho, um homenzinho do tamanho de uma mão entrou na sala e o duende falou:

– Traga-me a varinha.

O pequenino se curvou três vezes e saiu, um minuto depois voltou trazendo uma varinha preta com uma frutinha na ponta e, ao entregá-la ao duende, fez uma reverência três vezes e saiu de costas, como tinha feito antes.

O duende tocou a varinha no ombro esquerdo do anão, depois no direito e então em seus lábios.

– Fale! – ordenou o duende.

O anão falou qualquer coisa e ficou tão feliz ao ouvir a própria voz que dançou pelo salão.

– Quem é você, afinal? — falou ao duende.

– Venha, vamos comer primeiro.

Eles se sentaram à mesa, comeram e beberam alimentos servidos pelo pequenino homem.

– Você me perguntou quem sou? — falou o duende.

– Perguntei — disse o anão.

– Então eu te pergunto. Quem é você?

O anão corou como uma rosa, não sabia o que dizer, não se lembrava de nada do seu passado.

Sua lembrança mais antiga era do dia em que foi escolhido pelo um rei para ser responsável por levar provimentos a uma senhora e uma moça que moravam numa cabana isolada.

– E então, você se apaixonou por Finola — disse o duende, piscando para o anão.

O pobre anão corou duas vezes mais do que antes.

– Diga-me com sinceridade: O que faria para libertá-la do encantamento que a mantém presa àquela cabana?

– Eu daria minha vida.

– Bem, nesse caso, ouça. A Princesa Finola foi banida para a cabana isolada pelo rei. Ele matou o pai dela, que era o rei por direito, e queria ter matado Finola, mas uma velha feiticeira disse que se ele a matasse, ele próprio morreria no mesmo dia. Ela o aconselhou a mandá-la para aquele lugar e fez um feitiço para que lá ela ficasse presa. O rei se encarregou de encontrar alguém para levar alimento às duas e você foi o escolhido.

– Já que você sabe tanto, pode me dizer quem sou e de onde vim? – falou o anão.

– Você vai saber disso em breve. Eu devolvi sua fala. Depende apenas de você recuperar a sua memória, de quem é, e do que você era antes do dia em que começou a trabalhar para o rei. Mas está mesmo disposto a tentar quebrar o feitiço de encanto e libertar a princesa?

– Estou – disse o anão.

– Custe o que custar?

– Sim, mesmo que custe minha vida. Mas, me diga, como o feitiço pode ser quebrado?

– Ah, é bem fácil quebrar o feitiço se você tiver as armas apropriadas — disse o duende.

– Quais são e onde estão? — perguntou o anão.

– A lança de cabo reluzente e o escudo de prata. Estão na ilha que fica no centro do Lago Místico. Estão ali à espera do homem que seja corajoso o suficiente para encontrá-los. Só terá que bater no escudo três vezes com o cabo e três vezes com a lâmina da lança, então o feitiço de encantamento será removido e a princesa será libertada.

– Vou partir de uma vez – disse o anão, levantando-se da cadeira.

– Você fará isso custe o que custar? Você aceita pagar o preço?

– Aceito.

– Bem, então, monte no cavalo e vá até o lago Místico, a ilha é protegida por corcéis d’água que a protegem dia e noite. Eles te deixarão passar se você pagar o preço.

– Qual o preço?

– Você saberá na hora certa. Você deverá esperar até que as águas estejam tintas como o vinho, então poderá passar sem ser atacado.

O anão partiu e depois de um dia de viagem chegou às margens do Lago Místico.

O velho cavalo, desgastado pela longa e árdua viagem, deitou-se, e o anão estava tão cansado que rolou de barriga para cima e adormeceu ao lado do animal.

Ele acordou ao amanhecer e viu a ilha à sua frente, a princípio não viu os corcéis, mas ao se aproximar do lago, os viu nadando e saltitando na água. Eles bufavam de forma terrível e deixaram o anão assustado.

Enquanto observava os corcéis, foi surpreendido ao ver que ao seu lado estava o pequeno duende segurando uma harpa com uma das mãos e dedilhando as cordas com a outra.

– Está pronto para pagar o preço? — perguntou o duende.

– Sim – respondeu o anão ouvindo os corcéis d’água relincharem mais furiosamente.

– Está pronto para pagar o preço? — perguntou uma segunda vez.

– Sim.

A água espirrada, lançada pelos corcéis irados, encharcou o anão, e isso fez com que ele estremecesse até os ossos.

– Pela terceira e última vez, está pronto para pagar o preço?

– Sim, estou pronto. Qual o preço?

– Seu olho direito.

E antes que o anão pudesse dizer algo, o duende arrancou o olho com o dedo e o enfiou no bolso. O anão sofreu uma dor horrorosa, mas suportou-a pelo bem da princesinha.

Então, o duende se sentou em uma rocha à beira do lago e começou a tocar uma canção na harpa. O som se espalhou pelas águas.

Logo, o anão viu o que pensou ser uma nuvem escura atravessando o céu, do leste ao oeste. Parecia ficar maior conforme se aproximava mais e mais, e quando estava bem acima do lago, viu que se tratava de um pássaro enorme. Era um dos Corvos-marinhos dos Mares Ocidentais.

Ele viu que a ave trazia uma grande árvore em suas garras, os galhos estavam tomados por frutinhas vermelhas maduras e então, o grande pássaro começou a comer as frutinhas e jogar suas sementes na água. Conforme caiam, as águas começaram a se tingir de vermelho vivo.

O anão pode então atravessar o lago por sobre as águas e chegar à ilha Mística.

Depois de procurar pela ilha, ele encontrou o escudo e a espada, bateu no escudo três vezes com o cabo da lança e três vezes com a lâmina, nesse momento uma luz irradiou iluminando tudo à sua volta.

O anão percebeu que seu velho cavalo era agora um grande alazão e, ele mesmo, não era mais um anão, mas sim um cavaleiro, sua visão do olho arrancado se recuperou e ele então se lembrou de toda a sua vida. Lembrou-se de seu nome, Conal, e do feitiço que o deixou mudo. Recordou que ele e Finola se amavam e teriam se casado, se não fosse o feitiço que os separou.

Colocou então as rédeas no pescoço do cavalo e, mais rápido do que o vento, o belo animal seguiu galopando. Não demorou muito para que chegasse à cabana isolada. Nos pontos onde as patas do cavalo batiam no chão, grama e flores surgiam, e grandes árvores com galhos frondosos apareciam por todos os lados.

Por fim, o cavaleiro chegou à casinha. Finola o estava esperando. O cavaleiro a pegou nos braços e a beijou, em seguida, a colocou no cavalo e juntos saíram daquele lugar.

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Conto Celta de Elizabeth W. Grierson

Era uma vez um homem que vivia no litoral, no norte da Escócia. Seu trabalho era caçar focas para vender a pele. Ele vivia bem, pois as peles eram vendidas por um bom dinheiro e sempre havia compradores.

Ele ainda tinha a vantagem de viver em um lugar onde as focas costumavam se reunir para tomar sol na praia, dessa maneira era fácil pegá-las.

Nessa praia onde as focas se reuniam, sempre apareciam algumas que eram bem maiores que as outras. As pessoas da região diziam que não eram focas, e sim, sereianos que adotavam esse disfarce para poder subir à superfície sem que as pessoas se assustassem.

O caçador nunca acreditou nessas histórias e matava as grandes focas da mesma maneira que as outras, na verdade ele as preferia, porque podia vender mais caro.

Um dia, o homem ficou à espreita para atacar uma dessas grandes focas que estava sentada em uma pedra, à beira do mar.

Ele a atingiu com sua faca de caça, mas o golpe não foi tão certeiro quanto imaginava e a foca conseguiu pular no mar, levando a faca com ela.

O homem ficou chateado por não ter conseguido matá-la e, mais ainda, por ter perdido a sua melhor faca.

Irritado, ele foi embora para sua casa.

No dia seguinte, quando se encaminhava para a praia, foi surpreendido por um homem bem alto que vinha em um cavalo muito grande. Ele nunca havia visto uma pessoa assim antes e ficou impressionado, imaginando de onde teria vindo uma pessoa assim. O grande homem parou seu cavalo à frente do caçador e falou:

– Do que trabalha, homem?

– Sou caçador de focas – respondeu.

Então, ele disse que queria fazer uma encomenda muito grande de peles, porém, deveriam ser entregues no mesmo dia.

– Não consigo caçar tantas focas em um só dia, é impossível.

– Não se preocupe com isso, conheço um lugar onde tem tantas focas que você conseguirá, venha comigo, eu te levo até lá.

O caçador concordou e subiu na garupa do cavalo. Eles cavalgaram por um tempo e chegaram a um precipício à beira mar.

– Vamos, desça – falou o homem que havia feito a encomenda das peles de foca.

O caçador desceu e quando foi espiar para ver onde estariam as focas, se surpreendeu.

– Onde estão as focas que você falou?

– Logo você verá!

Nesse momento, o homem empurrou o caçador que caiu do precipício, direto para o fundo do mar.

Ele pensou que seria o seu fim, mas, para a sua surpresa, percebeu que conseguia respirar no fundo do mar da mesma maneira que fazia na superfície.

Viu então ao seu lado, o grande homem nadando junto com ele. O homem o agarrou e o levou para o mais profundo do oceano.

Depois de muito nadarem, chegaram a uma enorme porta em arco feita de coral rosa e cheia de conchas como ornamento.

A porta se abriu e ele se viu em um enorme salão cheio de focas, quando virou para o homem para perguntar o que era aquilo percebeu que, assim como o homem, ele também havia assumido a forma de foca.

O caçador começou a se desesperar, sem entender o que estava acontecendo. Então uma foca parou a sua frente e disse:

– Já viu esta faca? – mostrando a sua faca que havia perdido quando tentara matar a foca na praia.

Ele ficou horrorizado, entendeu que aquele era seu fim, era a vingança pelo que havia feito. Começou a chorar e pedir por misericórdia.

Mas, ao invés da atitude hostil que ele temia, as focas o rodearam e começaram a esfregar suas cabeças na cabeça dele em sinal de compaixão.

Então, uma delas falou:

– Não te faremos mal, somente queremos que nos faça um favor.

– Sim, claro, o que posso fazer?

– Venha comigo!

O caçador de focas o seguiu e, em uma sala ao lado, se deparou com uma grande foca, deitada e com uma grande ferida aberta no lado do corpo.

– Este é meu pai, que você feriu ontem, você deve curar a ferida dele.

– Mas como farei isso? – respondeu o caçador.

– Não sei como, mas só você pode fazer isto.

Então, o caçador se aproximou da grande foca e pegou algumas algas para tentar enfaixar a ferida, porém, quando o tocou, uma mágica aconteceu.

A ferida começou a se fechar até sumir. Em pouco tempo a grande foca estava curada.

Todos começaram a gritar e fazer festa pelo acontecido.

– Agora estás livre para voltar para casa, para tua esposa e filhos. Vou te levar à superfície, mas tenho uma condição.

– E qual é? – perguntou o caçador de focas.

– Que faças um juramento solene de nunca mais ferir uma foca.

– Farei isso de bom grado — respondeu.

O caçador então disse adeus a todos e foi levado pela foca para a superfície, assim que chegou à praia, ele voltou à forma humana.

O homem cumpriu sua promessa e nunca mais matou nenhuma foca.

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História de Hans Christian Andersen

O PALÁCIO DA RAINHA DA NEVE

Tudo no palácio era feito de neve e gelo. Havia centenas de quadros iluminados pelas fortes luzes boreais.

Gerda entrou no castelo e ele estava completamente vazio. Não havia nenhuma alegria naquele lugar. Não havia música, nem brincadeiras, nem mesmo as fofocas comuns em palácios na hora do chá.

Imenso, vasto e frio eram os salões da Rainha da Neve. As luzes do Norte iam e vinham com tamanha regularidade que era possível contar os segundos entre as idas e vindas. No meio desses infindáveis salões havia um lago congelado.

A superfície estava quebrada em milhares de pedaços, mas cada um era tão parecido com o outro que formavam uma obra de arte perfeita.

A Rainha da Neve sentava-se bem no meio dele quando estava em casa.

O pequeno Kay estava azul de frio, mas ele não sabia, pois, a Rainha da Neve o havia batizado com cacos de gelo, e seu coração estava um pouco melhor que uma estalactite.

Ele perambulava, puxando pedaços afiados e lisos de gelo que se encaixavam em toda sorte de formatos. Era como um quebra-cabeças.

– Agora irei voar para os países quentes, preciso levar um pouco de frio para estes lugares, quero espiar os caldeirões de fogo e embranquecê-los um pouco – informou a Rainha, se referindo aos vulcões Etna e Vesúvio.

Kay ficou sentado e sozinho no meio daqueles infinitos e vazios salões de gelo. Olhava para os pedaços de gelo e pensava. Sentou-se tão rígido e imóvel que alguém poderia pensar que ele havia morrido congelado.

Foi quando a pequena Gerda entrou no Palácio, através das enormes portas, com um vento cortante. Ela rezou sua oração favorita e o vento cessou como se embalado para dormir.

Andou pelo grande salão vazio e viu Kay, reconhecendo-o rapidamente. Envolveu-o com seus braços, apertando-o com firmeza, e gritou:

– Kay, pequeno Kay! Enfim consegui te encontrar!

Mas ele continuou sentado, rígido e frio.

A pequena Gerda derramou lágrimas quentes, elas caíram sobre o peito de Kay e penetraram em seu coração. Lá, derreteram a pedra de gelo e dissolveram um pouco do espelho que estava lá dentro. Ele olhou para ela e Gerda falou uma parte da oração:

— Onde rosas cobrem o vale florido, lá, Menino Jesus, que te aclamamos!

Ela chorou e orou muitas vezes até que Kay explodiu em lágrimas. Chorou tanto que os grãos do espelho que estavam em seus olhos e em seu coração saíram.

– Gerda, minha pequena Gerda! Onde esteve durante esse tempo todo? Onde eu estive?

Ele olhou ao redor e disse:

– Como está frio aqui, e como é vazio!

Kay continuou segurando Gerda, que ria e chorava de alegria.

A alegria deles era tão celestial que até os pedaços de gelo dançavam alegres ao seu redor.

Gerda beijou suas bochechas e elas ficaram rosadas. Beijou seus olhos, e eles brilharam como os dela. Beijou suas mãos e seus pés, e Kay ficou são e forte. A Rainha da Neve podia voltar para casa a qualquer momento, Kay estava livre agora, nada mais o prenderia naquele lugar.

Eles se deram as mãos e caminharam pelo grande Palácio.

Falaram da avó e das rosas no telhado. Onde quer que fossem, o vento estava calmo e o sol passava pelas nuvens. Quando chegaram aos portões do castelo, encontraram a rena que havia trazido outra rena consigo, mais jovem e com o úbere pleno. As crianças beberam seu leite quente e se sentiram mais fortes e aquecidos.

Os animais carregaram Kay e Gerda primeiro para a mulher finlandesa, em cuja cabana se aqueceram e receberam direções para voltar para casa. Depois, até a casa da primeira mulher, que tinha novas roupas para eles e lhes preparara um trenó.

As renas foram ao lado dos amigos até que estivessem em terras mais quentes.

Lá, apareciam os primeiros botões verdes e as crianças deram adeus às renas. Ouviram os primeiros filhotes de passarinhos piando. Da floresta surgiu uma jovem garota num cavalo bonito, que Gerda conhecia. A moça tinha um chapéu escarlate na cabeça e pistolas no cinto, era a pequena ladra, que crescera e se cansara de ficar em casa. Estava cavalgando para o norte para ver o que acharia de lá antes de ir para as outras partes do mundo. Ela os viu, reconheceu Gerda e falou a Kay:

– Você é um belo rapaz para sair perambulando por aí, estava curiosa para saber se você vale tanto assim para ter alguém como Gerda correndo até o fim do mundo atrás de você.

A pequena ladra prometeu que se passasse pela cidade deles, iria visitá-los.

Depois desse encontro eles foram até o castelo da princesa e lá ficaram por um tempo. Souberam que o corvo havia morrido, de velhice.

O tempo havia passado muito rápido em todos os lugares, menos para Gerda e Kay. Curioso.

Kay e Gerda continuaram andando de mãos dadas e aonde quer que fossem, sempre encontravam a mais prazerosa primavera e flores brotando. Logo, reconheceram a cidade grande onde moravam, com todas as torres altas, nas quais os sinos ainda dobravam estrondosos e alegres. Foram direto para a porta da avó, subiram as escadas e entraram no quarto.

Tudo estava como eles haviam deixado, mas a avó já havia morrido. Ao passarem pela porta, perceberam que agora eram adultos. As rosas se entrançavam ao redor da janela aberta.

Eles se sentaram e ficaram de mãos dadas olhando para tudo com alegria. Crescidos, mas ainda crianças no coração.

Era um quente e belo verão.

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