História de Ítalo Calvino

Era uma vez um rei que tinha uma filha. A mãe da menina havia morrido e a madrasta sentia muito ciúmes da enteada, vivia tentando fazer o pai ficar contra a filha.

A princesa vivia apreensiva e tentava de todas as maneiras não incomodar a madrasta, mas não teve jeito, a madrasta tanto falou que o Rei acabou concordando em mandar a filha para viver em outro lugar.

O pai mandou preparar um castelo no bosque para a filha morar e para lá enviou vários servos e damas da corte para fazerem companhia a ela.

A princesa recebeu um aposento bem montado e era bem tratada, mas tinha uma condição imposta pela madrasta: ela não poderia sair de seu quarto.

Contudo, a princesa, sempre sozinha naquele aposento, passava os dias tristemente debruçada na janela em uma almofada para não machucar os braços. A janela dava para o bosque e a princesa, durante o dia inteiro, só via o alto das árvores, as nuvens e a trilha dos caçadores.

Por ali passou um dia, um príncipe de outro reino.  Ele perseguia um javali e passando perto daquele castelo, que sabia estar desabitado havia muito tempo, admirou-se ao ver sinais de vida, com panos estendidos, fumaça nas chaminés, vidraças abertas.

Observava tudo, quando viu, na janela de cima, uma bela moça debruçada, e sorriu para ela. A moça também viu o príncipe, vestido de amarelo e com polainas de caçador e espingarda, que olhava para cima e sorria para ela, ela também sorriu para ele.

No dia seguinte, o príncipe, com a desculpa de ir caçar, estava lá de novo, e ficaram se olhando por mais tempo, sorrindo e fazendo gestos.

No terceiro dia, o príncipe chegou a lhe mandar um beijo na ponta dos dedos. No quarto dia, estava lá como sempre, quando, de trás de uma árvore, apareceu uma fada que falou:

– Onde é que já se viu dois namorados ficarem tão distantes!

– Se soubesse como fazer para alcançá-la! — disse o príncipe.

– Acho os dois simpáticos, vou ajudá-los — disse a fada.

Então a fada foi até o castelo e deu às damas de companhia um livro para que fosse entregue à princesa, dizendo ser uma entrega do rei.

No começo do livro estava escrito: “Este é um livro mágico. Se virar as páginas no sentido certo, o homem se transforma em pássaro e, se virar as páginas ao contrário, o pássaro se transforma de novo em homem”.

A moça correu até a janela, pousou o livro no balcão e começou a virar as páginas às pressas enquanto observava o jovem vestido de amarelo em pé no meio da trilha. De repente, o príncipe se transformou num lindo canário amarelo, que levantou voo e veio se sentar na almofada do batente da janela.

Ela folheou o livro de novo, no sentido contrário e o pássaro virou príncipe novamente.

Deste dia em diante o príncipe visitava a princesa todos os dias, e a cada dia estavam mais apaixonados.

Um dia, a rainha malvada foi visitar a enteada.

A rainha abriu a janela, olhou para fora e, na trilha lá embaixo, viu o príncipe vestido de amarelo que se aproximava com seus cães. Ela ficou intrigada com aquilo.

Antes de ir embora pediu que os serviçais ficassem atentos ao príncipe que estava rondando o castelo.

Os empregados começaram a vigiar os dois e rapidamente descobriram o segredo deles.

Na visita seguinte a rainha colocou vários alfinetes na almofada da janela da princesa sem que ela percebesse e foi embora, já esperando fazer mal ao pobre príncipe.

Quando a rainha foi embora a moça virou rápido as páginas do livro, o príncipe se transformou em canário, voou até a janela e lançou-se como uma flecha sobre a almofada. Imediatamente se ouviu um agudo grito de dor. As penas amarelas haviam se tingido de sangue, o canário enfiara os alfinetes no peito. O pássaro se ergueu batendo desesperadamente as asas e mergulhou, pousando no chão com as asas abertas.

Assustada, sem perceber o que acontecera exatamente, a princesa virou depressa as folhas ao contrário, esperando que, se lhe devolvesse a forma humana, os ferimentos desapareceriam. Porém, o príncipe ressurgiu jorrando sangue de profundas feridas que lhe dilaceravam o peito. A roupa amarela se tornara vermelha e assim, o moço jazia de bruços.

O barulho atraiu os cachorros e os companheiros de caçada do príncipe que o socorreram e o levaram ao seu castelo.

O rei, pai do príncipe, prometeu tesouros a quem soubesse como curá-lo, mas nenhum dos que se apresentaram conseguiu salvá-lo.

Entretanto, a princesa se consumia por não poder chegar perto do amado.

Um dia, desesperada de preocupação com o príncipe, a princesa amarrou vários lençóis, fazendo uma corda, escapou da torre do castelo e saiu andando pela trilha dos caçadores.

Como estava muito escuro e não podia enxergar nada, resolveu parar e esperar amanhecer. Ela encontrou um tronco de árvore oco e entrou nele para aguardar a aurora.

Quando começou a pegar no sono a princesa ouviu uma conversa, espiou e viu quatro bruxas fazendo uma reunião ali perto, ele resolveu se aproximar um pouco para ouvir.

Elas acenderam uma fogueira junto a uma árvore e se sentaram para se aquecer e assar alguns morceguinhos para o jantar. Estavam conversando sobre diversos assuntos quando uma delas falou:

— Vi que o rei daqui de perto tem o filho doente e ninguém sabe a cura, mas eu sei.

— E qual é? — perguntaram as outras bruxas.

— É muito simples, é só passar um unguento de casca de carvalho com pó de raiz seca e o fio de cabelo de uma princesa.

A princesa estava para dar um grito de alegria, mas conseguiu ficar quieta. As bruxas já tinham dito tudo o que tinham para se dizer e tomaram cada uma o seu caminho. Já estava amanhecendo e a princesa pôs-se a andar em direção ao castelo.

Na vila que ficava ao lado do castelo, conseguiu todos os ingredientes para o unguento, mas teve que vender o seu colar para comprar tudo. Ela preparou o remédio e foi para o castelo.

Lá ela se apresentou e disse que tinha o remédio para curar o príncipe.

Várias pessoas já haviam tentado, sem sucesso.

Ela entrou no castelo e foi levada até o príncipe que estava delirando de febre em sua cama.

Quando chegou à cabeceira do amado, que gemia inconsciente em sua cama, a princesa queria explodir em lágrimas e cobri-lo de beijos, mas se conteve. Pegou o unguento e começou a esfregar as feridas do príncipe, bastava passar a mão cheia do remédio em cima da ferida que esta desaparecia.

Toda contente, chamou o rei e ele viu o filho sem feridas, com o rosto cheio de cores, dormindo tranquilo.

– Peça o que quiser, todas as riquezas do tesouro do Estado são para você – disse o rei.

– Não quero dinheiro, quero somente me casar com ele – falou a princesa.

– Mas isso não é possível, ele só poderá se casar com uma princesa.

– Sou uma princesa!

Nesta hora o príncipe acordou e reconheceu sua amada. Em poucos dias eles se casaram, a princesa nunca mais voltou para perto de sua madrasta e eles foram felizes para sempre.

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História de Ítalo Calvino

Era uma vez dois mercadores que moravam na mesma rua. Um tinha sete filhos e o outro tinha sete filhas. Todos os dias, o pai dos sete filhos cumprimentava o outro falando:

– Bom dia, mercador das sete vassouras.

O pai das sete filhas detestava este cumprimento e ficava com muita raiva do outro por isso.

Um dia a filha mais nova, que tinha dezessete anos, falou para o pai:

– Quando ele lhe falar assim, responda: “Bom dia, mercador das sete espadas. Vamos fazer uma aposta, peguemos minha última vassoura e a sua primeira espada e vejamos quem consegue pegar primeiro o cetro e a coroa do rei da França e trazê-los até aqui. Se minha filha vencer, você me entrega toda a sua mercadoria e, se seu filho vencer, perderei toda a minha mercadoria”. Assim que ele aceitar obrigue-o a assinar um contrato imediatamente.

O pai ficou de boca aberta ao ouvir o que a filha dizia: 

– Mas, minha filha, o que está dizendo? Quer que eu perca todas as minhas coisas?

– Papai, não tenha medo, deixe por minha conta, pense apenas em fazer a aposta que do resto cuido eu.

No dia seguinte, como de costume, quando se encontraram o mercador falou:

– Bom dia, mercador das sete vassouras!

E ele, rápido:

— Bom dia, mercador das sete espadas, façamos uma aposta: pego minha última vassoura e você, sua primeira espada, damos um cavalo e uma bolsa de dinheiro a cada um, e vejamos qual deles consegue nos trazer a coroa e o cetro do rei da França. Apostemos toda a nossa mercadoria, se minha filha vencer, pego todas as suas coisas, se seu filho vencer, você pega todas as minhas coisas.

O outro mercador o encarou por um momento, depois explodiu numa risada.

– Como é, ficou com medo? Não confia no seu filho? — provocou o pai das sete filhas.

E o outro, apanhado de surpresa, disse:

— Por mim, aceito, assinemos logo o contrato e façamos que partam imediatamente.

E foi logo contar tudo ao filho mais velho.

O rapaz adorou a novidade, achando que viajaria com a moça, que era muito bonita, porém, na hora da partida, a viu chegar vestida de homem, montada em uma potra branca e não entendeu nada.

Dada a partida a moça partiu a galope e o cavalo do rapaz estava com dificuldade de alcançá-la.

Para chegar à França era necessário passar por um bosque escuro e sem estradas nem atalhos. A potra se enfiou no bosque como se estivesse em casa. O filho do mercador, ao contrário, não sabia por onde conduzir seu grande cavalo, se enroscava nas moitas e se atrapalhava todo.

A moça superou o bosque e galopava longe.

Depois era preciso transpor uma montanha cheia de abismos e despenhadeiros. A moça atingiu o início da encosta quando ouviu o galope do grande cavalo do filho do mercador. A potra enfrentou a subida, como se estivesse em casa, saltou em meio aos pedregulhos e achou o caminho.

O jovem, ao contrário, empurrava seu cavalo à força de puxões das rédeas e acabou por deixá-lo manco.

Então, era necessário atravessar um rio e, de novo, como se estivesse em casa, a potra acertou o local de entrar na água e conseguiu passar sem grandes problemas.

Já o rapaz, quando chegou à beira do rio, entrou na parte mais funda e o cavalo começou a afundar, para não morrer afogado precisou voltar.

Em Paris, vestida de homem, a moça apresentou-se no castelo, dizendo se chamar Temperino. Ela disse que era um soldado e pediu trabalho no castelo.

Em pouco tempo ela se destacou em seu trabalho e foi designada para cuidar da guarda do rei, que assim que a viu ficou muito intrigado e falou com sua mãe:

– Mamãe, repare neste soldado Temperino, há qualquer coisa que não convence. Tem mãos delicadas, tem cintura fina, toca e canta, sabe ler e escrever. Temperino é a mulher que me faz suspirar!

— Meu filho, você está louco! — respondeu a rainha-mãe.

— Mamãe, é mulher, garanto-lhe. O que posso fazer para ter certeza?

— Há um jeito — disse a rainha-mãe. — Vá caçar com ele, se for atrás de codornas é uma mulher que só tem cabeça para os assados, se for atrás dos pintassilgos é um homem que só tem cabeça para o prazer da caça.

E, assim, o rei deu um fuzil a Temperino e o levou para caçar com ele.

O rei, para induzi-lo ao erro, pôs-se a disparar só contra as codornas.

— Majestade — disse Temperino — permita-me uma ousadia, já tem o suficiente para um assado. Dispare também contra os pintassilgos, pois é mais difícil.

Quando o rei retornou à casa, disse à mãe:

— Sim, ele só disparava contra os pintassilgos e não contra as codornas, mas não estou convencido. Tem mãos delicadas, tem cintura fina, toca e canta, sabe ler e escrever, Temperino é a mulher que me faz sonhar!

— Meu filho, tente de novo — disse a rainha. — Leve-o à horta para colher verduras. Se a colher bem em cima é mulher, pois nós, mulheres, temos mais paciência, se a arrancar com todas as raízes, é um homem.

O rei se dirigiu à horta e Temperino se pôs-se a arrancar pés inteiros de verdura, bem depressa, conseguiu encher um cesto de verdura, arrancando-a com raízes e terra grudada.

O rei estava desesperado, mas não se rendia.

— Tem mãos delicadas, cintura fina… — repetia para a mãe —, canta e toca, sabe ler e escrever, Temperino é a mulher que me faz suspirar.

— A essa altura, meu filho, só lhe resta levá-lo para tomarem banho juntos.

Assim, o rei disse a Temperino:

— Venha, vamos tomar banho no rio.

Tendo chegado ao rio, Temperino disse:

—Majestade, dispa-se primeiro.

E o rei se despiu e entrou na água.

— Venha também você! — disse a Temperino.

— Minha potra! — gritou Temperino. — Espere, Majestade, pois tenho que ir atrás de minha égua que está fugindo.

Ela recolheu as roupas do rei, para que ele ficasse preso ao rio e correu ao palácio real.

— Majestade — disse à rainha —, o rei se despiu no rio e alguns guardas, não o reconhecendo, querem prendê-lo. Mandou que viesse lhe pedir seu cetro e sua coroa para se fazer reconhecer.

A rainha pegou o cetro e a coroa, e os entregou a Temperino. Assim que os recebeu, Temperino montou na potra e partiu a galope cantando:

– Donzela cheguei, donzela regressei! O cetro e a coroa conquistei!

Passou pelo rio, passou pelo monte, passou pelo bosque e retornou à casa, seu pai venceu a aposta, ficou ainda mais rico e nunca mais o seu vizinho o importunou.

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História de Ítalo Calvino

Era uma vez um rei que havia saído a passeio. Ele observava as pessoas, as andorinhas, as casas e estava contente.

Passou uma velhinha ao lado de sua carruagem, ela mancava um pouco de uma perna, era também meio corcunda e, além disso, tinha o pescoço torto.

O rei a observou e debochou:

— Corcunda, manca e de pescoço torto! Ah, ah, ah!

O que ele não sabia era que a velhinha era uma fada. Ela olhou o rei nos olhos e disse:

— Ria, voltaremos a conversar amanhã.

E o rei explodiu noutra risada:

— Ah, ah, ah!

Esse rei tinha três filhas lindas. No dia seguinte, resolveu convidá-las para um passeio. Quando foi chamar a filha mais velha viu que ela estava com uma corcunda.

— Que é essa corcunda? O que aconteceu? – disse o Rei.

— Acho que a camareira não arrumou direito a minha cama, eu dormi e acordei assim – disse a moça.

O rei ficou nervoso e começou a andar de um lado para outro.

Mandou chamar a segunda filha e ela chegou com o pescoço torto.

— Que história é essa? O que aconteceu com seu pescoço? – falou o Rei.

— Quando a camareira estava me penteando, puxou meu cabelo muito forte e eu fiquei com o pescoço assim.

Assim que acabou de falar, a filha mais nova entrou na sala mancando.

— Mas o que é isso? Por que está mancando? – falou o Rei.

— Eu fui ao pomar colher uma maçã, a camareira deixou cair uma fruta em meu pé e agora estou mancando.

— Mas quem é essa camareira? Tragam-na à minha presença! – gritou o Rei muito nervoso.

A camareira foi levada ao rei por alguns guardas e, imediatamente, o Rei a reconheceu-a como a velhinha do dia anterior. Ele ficou muito envergonhado com o que havia feito.

Assim que pediu desculpas pelo seu comportamento, as suas filhas voltaram ao que eram antes.

Conselho de vó: Quando a dor do outro não te afeta a vida dá um jeito de te ensinar.

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História de Ítalo Calvino

Era uma vez uma mulher viúva que casou com um homem viúvo, cada um tinha uma filha. A mãe tratava bem à sua filha, mas à enteada não.

Ela mandava as duas buscarem água no rio, a sua filha com uma jarra e a enteada com uma cestinha. Mas a água da cestinha escorria e a madrasta brigava com ela todos os dias.

Certo dia, quando ia buscar água, a cesta lhe escapou das mãos torrente abaixo. Ela se pôs a correr à margem do rio, procurando a cestinha.

Depois de muito correr, encontrou uma velha sentada numa pedra no meio da torrente, e lhe disse:

– Viu minha cestinha?

– Venha até aqui — disse-lhe a velha —encontrei sua cestinha. Mas me faça um favor, vê se descobre o que me belisca aqui nas costas. O que tenho?

A moça olhou para as costas da mulher e viu muitas pulgas, mas para não magoar a velha falou:

– São pérolas e diamantes, deixe que eu tiro.

– E pérolas e diamantes terá — respondeu a velha.

Assim que ficou livre das pulgas a velha falou:

– Venha comigo!

A mulher a levou até à sua casa e lá chegando lhe disse:

– O que você vê na minha cama?

Era uma cama suja, cheia de entulhos, mas a menina respondeu enquanto arrumava tudo:

– Rosas e jasmins.

– Rosas e jasmins terá. Faça-me ainda outro favor, o que vê no chão?

A moça disse:

– Rubis e querubins.

– E rubis e querubins terá.

Depois abriu um armário com todo tipo de vestidos e lhe disse:

– Quer um vestido de seda ou um vestido de percal?

E a moça:

– Sou pobre, me dê um vestido de percal.

– E eu lhe darei um de seda.

Depois abriu um cofrinho e lhe disse:

– Quer ouro ou quer coral?

E a moça:

– Dê-me coral.

– E eu lhe dou ouro.

– Quer brincos de cristal ou brincos de diamantes?

— De cristal.

— E eu lhe dou de diamantes.

Então a mulher lhe deu um vestido de seda, um colar de ouro, um brinco de diamantes e encheu os seus bolsos de pérolas e pedras preciosas.

A moça voltou para casa e sua madrasta ficou de queixo caído quando viu a moça toda ornamentada com as mais belas roupas e joias. Ela lhe perguntou o que havia acontecido e a enteada respondeu:

– A correnteza do rio levou a minha cestinha e só fui encontrá-la perto da casa de uma velha que estava na beira do rio, foi ela que me deu todas essas coisas.

A madrasta, imediatamente, mandou sua filha para a casa da velha. Lá chegando ela viu a velha sentada. Assim que a velha lhe viu falou:

– Venha até aqui, moça. Ajude-me a procurar o que tenho nas costas que me belisca. O que tenho?

– Pulgas e sarna.

– E pulgas e sarna terá.

Levou-a para arrumar a cama.

– O que se encontra aí?

– Percevejos e piolhos.

– E percevejos e piolhos terá.

Fez com que varresse a casa:

– O que se vê?

– Uma sujeira que dá nojo!

– E uma sujeira que dá nojo terá.

Depois lhe perguntou se queria vestido de saco ou vestido de seda.

– Vestido de seda!

– E eu lhe dou um de saco. Colar de pérolas ou colar de barbante?

– Pérolas!

– E eu lhe dou barbante. Brincos de ouro ou brincos de latão?

– De ouro!

– E eu lhe dou de latão. Agora volte para casa.

Conselho de vó: A verdadeira bondade é aquela feita a pessoas que não podem retribuir, este é o verdadeiro tesouro. 

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História de Ítalo Calvino

Pocapaglia era uma aldeia tão íngreme, tão íngreme, que os habitantes, para não perder os ovos que rolariam pelos bosques, penduravam um saquinho no rabo das galinhas.

Isso quer dizer que os pocapaglienses não eram tontos como as cidades vizinhas diziam, esta era uma maledicência, somente pelo fato de serem gente tranquila que não gostava de brigar com ninguém.

Quando eram ofendidos, apenas diziam:

– Esperem Masino voltar e vão ver.

Masino era o mais esperto dentre os pocapaglienses e o mais querido de toda a aldeia. Não era mais forte do que os outros, pelo contrário, à primeira vista não se dava um tostão por ele, porém era astuto desde que nasceu.

Sua mãe, assim que ele nasceu, vendo que era tão pequeno lhe deu um banho de vinho quente. Seu pai, para aquecer o vinho, pôs no recipiente em que este se encontrava uma ferradura quente e vermelha como o fogo.

Assim, Masino recebeu através da pele a sabedoria que existe no vinho e a resistência que existe no ferro.

Naqueles tempos, os pocapaglienses aguardavam o retorno de Masino, que havia se alistado como soldado e estava na África.

Um dia, começaram a acontecer fatos misteriosos em Pocapaglia. Todas as tardes, os bois e as vacas eram roubados pela Masca Marcial, uma bruxa, e bastava um sopro seu para fazer o pastor desmaiar e assim roubar os animais.

Os camponeses, ao ouvi-la sussurrar nas moitas após o pôr do sol, batiam os dentes e caíam desmaiados.

À noite, os camponeses começaram a acender grandes fogueiras para que a Masca Marcial não se atrevesse a sair dos matagais. Porém, ela se aproximava sem se deixar notar e roubava as vacas e os bois. Então, saíam todos pelos bosques à procura de vestígios dos animais, mas só encontravam tufos de cabelo, grampos e pegadas deixadas ao acaso.

As coisas continuaram assim durante meses e as vacas, que começaram a ficar trancadas no curral para não serem roubadas, foram ficando cada vez mais magras.

A Masca Marcial não ia roubar nas outras aldeias, pois sabia que gente tranquila e sem vontade de brigar como a de Pocapaglia não havia em lugar nenhum.

Os camponeses, sem saber o que fazer, resolveram pedir ajuda ao Conde, que era o homem mais rico e poderoso do lugar.

O conde morava na parte mais alta da aldeia, num casarão redondo, cercado por uma muralha toda espetada com cacos de vidro. Num domingo de manhã, todos juntos, chegaram de chapéu na mão e bateram nas portas do Conde.

O mais velho dos camponeses tomou coragem e disse:

– Senhor Conde, nós nos atrevemos a vir até o senhor para contar-lhe a nossa desgraça: todos os animais, quando vão ao bosque, são roubados pela Masca Marcial.

O conde ficou mudo.

– E nós viemos aqui — acrescentou o velho — para ousar pedir um conselho à Vossa Senhoria.

O conde continuou mudo.

– E viemos aqui — acrescentou — para ousar pedir a Vossa Senhoria a graça de vir em nosso socorro, pois se nos conceder uma escolta de soldados poderemos levar outra vez ao pasto os nossos animais.

O conde sacudiu a cabeça.

– Se concedo os soldados — disse —, tenho que conceder também o capitão…

Os camponeses escutavam com um fio de esperança.

– Mas, se me faltar o capitão, então, de noite, com quem hei de jogar tômbola?

Os camponeses se puseram de joelhos:

– Ajude-nos, senhor conde, por piedade!

Ao redor, os soldados bocejavam.

O conde sacudiu a cabeça de novo e disse:

– Sou o conde e com a Masca jamais cruzei, garanto que Mascas não existem.

Ouvindo tais palavras, os soldados, sempre bocejando, pegaram os fuzis e botaram os camponeses para fora.

De volta à praça, desanimados, os camponeses já não sabiam o que fazer.

Porém, o mais velho, o que se dirigira ao conde, disse:

– O jeito é fazer Masino voltar!

Assim, escreveram uma carta para Masino e a mandaram para a África.

Certa noite, quando estavam reunidos como sempre em volta da fogueira da praça, Masino reapareceu.

Fizeram festa, deram abraços e beberam vinho em comemoração.

– Por onde andou? – perguntou um camponês.

– O que viu? – perguntou outro.

– Na África vi canibais que, não podendo comer homens, comiam cigarras, no deserto vi um louco que para obter água deixara que as unhas crescessem doze metros, no mar vi um peixe com um sapato e uma pantufa e que pretendia ser rei dos demais, pois nenhum outro peixe tinha sapatos nem pantufas, na Sicília vi uma mulher que tinha setenta filhos e só uma panela, em Nápoles vi pessoas que caminhavam mesmo estando paradas porque as conversas dos outros as empurravam para diante, vi negro, vi branco, vi gente que pesa cem quilos, e gente da espessura de uma folha, vi tanta gente medrosa, porém jamais como em Pocapaglia.

Os camponeses baixaram a cabeça, cheios de vergonha, pois Masino, chamando-os de medrosos, tocara no ponto fraco dos camponeses.

 Mas Masino não queria brigar com seus conterrâneos. Exigiu que lhe contassem todos os detalhes da história da Masca e então disse:

– Agora, faço três perguntas e depois, quando soar meia-noite, irei pegar a Masca e a trarei aqui.

– Pergunte! Pergunte! — disseram todos.

– A primeira pergunta é para o barbeiro. Quantos vieram até você este mês?

E o barbeiro respondeu:

– Todos os cabelos e barbas desta vila viram a minha tesoura.

– E agora para você, sapateiro, quantos levaram os tamancos para consertar, este mês?

– Ai de mim — disse o sapateiro – não há mais dinheiro e não faço nada.

– Terceira pergunta para você, cordoeiro:

– Quantas cordas vendeu este mês?

– Cordas torcidas, cordas fiadas, cordas de palha em tiras e entrelaçadas, de vime e barbante, cordas para poço, finas como agulha, grossas feito braço, moles feito gordura, fortes como o aço, este mês não sobrou um pedaço.

– Já é suficiente — disse Masino e se acocorou junto ao fogo. — Agora, vou dormir duas horas porque estou cansado. Acordem-me à meia-noite e então agarrarei a Masca.

Cobriu o rosto com o chapéu e adormeceu.

À meia-noite, acordaram Masino, que se mexeu, bocejou, bebeu um copo de vinho quente, cuspiu três vezes no fogo e tomou o caminho do bosque.

Os camponeses ficaram esperando até que Masino voltou arrastando o Conde pelas barbas.

– Eis a Masca! — gritou Masino.

O Conde, perante os olhos arregalados de todos os aldeões, sentou-se no chão, encolhido como uma mosca com frio.

– Não podia ser um de vocês — explicou Masino — porque todos foram ao barbeiro e não têm cabelos para perder nas moitas, depois havia aquelas pegadas de sapatos grandes e pesados e vocês andam descalços. Não podia ser um espírito, pois não teria necessidade de comprar tanta corda para amarrar os animais roubados e sumir com eles.

O conde, trêmulo, tentava esconder-se na barba que Masino despenteara e arrancara para tirá-lo do meio das moitas.

– E como é que nos fazia desmaiar com o olhar? — perguntou um camponês.

– Dava-lhes uma paulada na cabeça com um bastão coberto de trapos, assim vocês só ouviam um sopro pelo ar, não lhes deixava marca e os fazia acordar com a cabeça pesada.

– E os grampos que perdia? — perguntou um outro.

– Serviam-lhe para prender a barba na cabeça, como os cabelos das mulheres.

Os camponeses estavam ouvindo em silêncio, quando Masino disse:

– E agora, o que desejam fazer com ele?

– Vamos queimá-lo! Vamos arrancar a pele dele! Vamos amarrá-lo num pau como espantalho! Vamos colocá-lo num barril e fazê-lo rodar! Vamos enfiá-lo num saco com seis gatos e seis cães!

– Piedade! — gemia o Conde com um fio de voz.

– Façam assim. — disse Masino — ele vai devolver os animais e limpar os currais. Visto que gostou de passear pelos bosques à noite, que seja condenado a continuar a passear por lá todas as noites e a juntar feixes de lenha para vocês.

E assim foi feito. Depois Masino saiu pelo mundo afora para suas viagens.

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