História de Ítalo Calvino

Era uma vez dois mercadores que moravam na mesma rua. Um tinha sete filhos e o outro tinha sete filhas. Todos os dias, o pai dos sete filhos cumprimentava o outro falando:

– Bom dia, mercador das sete vassouras.

O pai das sete filhas detestava este cumprimento e ficava com muita raiva do outro por isso.

Um dia a filha mais nova, que tinha dezessete anos, falou para o pai:

– Quando ele lhe falar assim, responda: “Bom dia, mercador das sete espadas. Vamos fazer uma aposta, peguemos minha última vassoura e a sua primeira espada e vejamos quem consegue pegar primeiro o cetro e a coroa do rei da França e trazê-los até aqui. Se minha filha vencer, você me entrega toda a sua mercadoria e, se seu filho vencer, perderei toda a minha mercadoria”. Assim que ele aceitar obrigue-o a assinar um contrato imediatamente.

O pai ficou de boca aberta ao ouvir o que a filha dizia: 

– Mas, minha filha, o que está dizendo? Quer que eu perca todas as minhas coisas?

– Papai, não tenha medo, deixe por minha conta, pense apenas em fazer a aposta que do resto cuido eu.

No dia seguinte, como de costume, quando se encontraram o mercador falou:

– Bom dia, mercador das sete vassouras!

E ele, rápido:

— Bom dia, mercador das sete espadas, façamos uma aposta: pego minha última vassoura e você, sua primeira espada, damos um cavalo e uma bolsa de dinheiro a cada um, e vejamos qual deles consegue nos trazer a coroa e o cetro do rei da França. Apostemos toda a nossa mercadoria, se minha filha vencer, pego todas as suas coisas, se seu filho vencer, você pega todas as minhas coisas.

O outro mercador o encarou por um momento, depois explodiu numa risada.

– Como é, ficou com medo? Não confia no seu filho? — provocou o pai das sete filhas.

E o outro, apanhado de surpresa, disse:

— Por mim, aceito, assinemos logo o contrato e façamos que partam imediatamente.

E foi logo contar tudo ao filho mais velho.

O rapaz adorou a novidade, achando que viajaria com a moça, que era muito bonita, porém, na hora da partida, a viu chegar vestida de homem, montada em uma potra branca e não entendeu nada.

Dada a partida a moça partiu a galope e o cavalo do rapaz estava com dificuldade de alcançá-la.

Para chegar à França era necessário passar por um bosque escuro e sem estradas nem atalhos. A potra se enfiou no bosque como se estivesse em casa. O filho do mercador, ao contrário, não sabia por onde conduzir seu grande cavalo, se enroscava nas moitas e se atrapalhava todo.

A moça superou o bosque e galopava longe.

Depois era preciso transpor uma montanha cheia de abismos e despenhadeiros. A moça atingiu o início da encosta quando ouviu o galope do grande cavalo do filho do mercador. A potra enfrentou a subida, como se estivesse em casa, saltou em meio aos pedregulhos e achou o caminho.

O jovem, ao contrário, empurrava seu cavalo à força de puxões das rédeas e acabou por deixá-lo manco.

Então, era necessário atravessar um rio e, de novo, como se estivesse em casa, a potra acertou o local de entrar na água e conseguiu passar sem grandes problemas.

Já o rapaz, quando chegou à beira do rio, entrou na parte mais funda e o cavalo começou a afundar, para não morrer afogado precisou voltar.

Em Paris, vestida de homem, a moça apresentou-se no castelo, dizendo se chamar Temperino. Ela disse que era um soldado e pediu trabalho no castelo.

Em pouco tempo ela se destacou em seu trabalho e foi designada para cuidar da guarda do rei, que assim que a viu ficou muito intrigado e falou com sua mãe:

– Mamãe, repare neste soldado Temperino, há qualquer coisa que não convence. Tem mãos delicadas, tem cintura fina, toca e canta, sabe ler e escrever. Temperino é a mulher que me faz suspirar!

— Meu filho, você está louco! — respondeu a rainha-mãe.

— Mamãe, é mulher, garanto-lhe. O que posso fazer para ter certeza?

— Há um jeito — disse a rainha-mãe. — Vá caçar com ele, se for atrás de codornas é uma mulher que só tem cabeça para os assados, se for atrás dos pintassilgos é um homem que só tem cabeça para o prazer da caça.

E, assim, o rei deu um fuzil a Temperino e o levou para caçar com ele.

O rei, para induzi-lo ao erro, pôs-se a disparar só contra as codornas.

— Majestade — disse Temperino — permita-me uma ousadia, já tem o suficiente para um assado. Dispare também contra os pintassilgos, pois é mais difícil.

Quando o rei retornou à casa, disse à mãe:

— Sim, ele só disparava contra os pintassilgos e não contra as codornas, mas não estou convencido. Tem mãos delicadas, tem cintura fina, toca e canta, sabe ler e escrever, Temperino é a mulher que me faz sonhar!

— Meu filho, tente de novo — disse a rainha. — Leve-o à horta para colher verduras. Se a colher bem em cima é mulher, pois nós, mulheres, temos mais paciência, se a arrancar com todas as raízes, é um homem.

O rei se dirigiu à horta e Temperino se pôs-se a arrancar pés inteiros de verdura, bem depressa, conseguiu encher um cesto de verdura, arrancando-a com raízes e terra grudada.

O rei estava desesperado, mas não se rendia.

— Tem mãos delicadas, cintura fina… — repetia para a mãe —, canta e toca, sabe ler e escrever, Temperino é a mulher que me faz suspirar.

— A essa altura, meu filho, só lhe resta levá-lo para tomarem banho juntos.

Assim, o rei disse a Temperino:

— Venha, vamos tomar banho no rio.

Tendo chegado ao rio, Temperino disse:

—Majestade, dispa-se primeiro.

E o rei se despiu e entrou na água.

— Venha também você! — disse a Temperino.

— Minha potra! — gritou Temperino. — Espere, Majestade, pois tenho que ir atrás de minha égua que está fugindo.

Ela recolheu as roupas do rei, para que ele ficasse preso ao rio e correu ao palácio real.

— Majestade — disse à rainha —, o rei se despiu no rio e alguns guardas, não o reconhecendo, querem prendê-lo. Mandou que viesse lhe pedir seu cetro e sua coroa para se fazer reconhecer.

A rainha pegou o cetro e a coroa, e os entregou a Temperino. Assim que os recebeu, Temperino montou na potra e partiu a galope cantando:

– Donzela cheguei, donzela regressei! O cetro e a coroa conquistei!

Passou pelo rio, passou pelo monte, passou pelo bosque e retornou à casa, seu pai venceu a aposta, ficou ainda mais rico e nunca mais o seu vizinho o importunou.

***

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História de Ítalo Calvino

Era uma vez um rei que havia saído a passeio. Ele observava as pessoas, as andorinhas, as casas e estava contente.

Passou uma velhinha ao lado de sua carruagem, ela mancava um pouco de uma perna, era também meio corcunda e, além disso, tinha o pescoço torto.

O rei a observou e debochou:

— Corcunda, manca e de pescoço torto! Ah, ah, ah!

O que ele não sabia era que a velhinha era uma fada. Ela olhou o rei nos olhos e disse:

— Ria, voltaremos a conversar amanhã.

E o rei explodiu noutra risada:

— Ah, ah, ah!

Esse rei tinha três filhas lindas. No dia seguinte, resolveu convidá-las para um passeio. Quando foi chamar a filha mais velha viu que ela estava com uma corcunda.

— Que é essa corcunda? O que aconteceu? – disse o Rei.

— Acho que a camareira não arrumou direito a minha cama, eu dormi e acordei assim – disse a moça.

O rei ficou nervoso e começou a andar de um lado para outro.

Mandou chamar a segunda filha e ela chegou com o pescoço torto.

— Que história é essa? O que aconteceu com seu pescoço? – falou o Rei.

— Quando a camareira estava me penteando, puxou meu cabelo muito forte e eu fiquei com o pescoço assim.

Assim que acabou de falar, a filha mais nova entrou na sala mancando.

— Mas o que é isso? Por que está mancando? – falou o Rei.

— Eu fui ao pomar colher uma maçã, a camareira deixou cair uma fruta em meu pé e agora estou mancando.

— Mas quem é essa camareira? Tragam-na à minha presença! – gritou o Rei muito nervoso.

A camareira foi levada ao rei por alguns guardas e, imediatamente, o Rei a reconheceu-a como a velhinha do dia anterior. Ele ficou muito envergonhado com o que havia feito.

Assim que pediu desculpas pelo seu comportamento, as suas filhas voltaram ao que eram antes.

Conselho de vó: Quando a dor do outro não te afeta a vida dá um jeito de te ensinar.

***

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História de Ítalo Calvino

Era uma vez uma mulher viúva que casou com um homem viúvo, cada um tinha uma filha. A mãe tratava bem à sua filha, mas à enteada não.

Ela mandava as duas buscarem água no rio, a sua filha com uma jarra e a enteada com uma cestinha. Mas a água da cestinha escorria e a madrasta brigava com ela todos os dias.

Certo dia, quando ia buscar água, a cesta lhe escapou das mãos torrente abaixo. Ela se pôs a correr à margem do rio, procurando a cestinha.

Depois de muito correr, encontrou uma velha sentada numa pedra no meio da torrente, e lhe disse:

– Viu minha cestinha?

– Venha até aqui — disse-lhe a velha —encontrei sua cestinha. Mas me faça um favor, vê se descobre o que me belisca aqui nas costas. O que tenho?

A moça olhou para as costas da mulher e viu muitas pulgas, mas para não magoar a velha falou:

– São pérolas e diamantes, deixe que eu tiro.

– E pérolas e diamantes terá — respondeu a velha.

Assim que ficou livre das pulgas a velha falou:

– Venha comigo!

A mulher a levou até à sua casa e lá chegando lhe disse:

– O que você vê na minha cama?

Era uma cama suja, cheia de entulhos, mas a menina respondeu enquanto arrumava tudo:

– Rosas e jasmins.

– Rosas e jasmins terá. Faça-me ainda outro favor, o que vê no chão?

A moça disse:

– Rubis e querubins.

– E rubis e querubins terá.

Depois abriu um armário com todo tipo de vestidos e lhe disse:

– Quer um vestido de seda ou um vestido de percal?

E a moça:

– Sou pobre, me dê um vestido de percal.

– E eu lhe darei um de seda.

Depois abriu um cofrinho e lhe disse:

– Quer ouro ou quer coral?

E a moça:

– Dê-me coral.

– E eu lhe dou ouro.

– Quer brincos de cristal ou brincos de diamantes?

— De cristal.

— E eu lhe dou de diamantes.

Então a mulher lhe deu um vestido de seda, um colar de ouro, um brinco de diamantes e encheu os seus bolsos de pérolas e pedras preciosas.

A moça voltou para casa e sua madrasta ficou de queixo caído quando viu a moça toda ornamentada com as mais belas roupas e joias. Ela lhe perguntou o que havia acontecido e a enteada respondeu:

– A correnteza do rio levou a minha cestinha e só fui encontrá-la perto da casa de uma velha que estava na beira do rio, foi ela que me deu todas essas coisas.

A madrasta, imediatamente, mandou sua filha para a casa da velha. Lá chegando ela viu a velha sentada. Assim que a velha lhe viu falou:

– Venha até aqui, moça. Ajude-me a procurar o que tenho nas costas que me belisca. O que tenho?

– Pulgas e sarna.

– E pulgas e sarna terá.

Levou-a para arrumar a cama.

– O que se encontra aí?

– Percevejos e piolhos.

– E percevejos e piolhos terá.

Fez com que varresse a casa:

– O que se vê?

– Uma sujeira que dá nojo!

– E uma sujeira que dá nojo terá.

Depois lhe perguntou se queria vestido de saco ou vestido de seda.

– Vestido de seda!

– E eu lhe dou um de saco. Colar de pérolas ou colar de barbante?

– Pérolas!

– E eu lhe dou barbante. Brincos de ouro ou brincos de latão?

– De ouro!

– E eu lhe dou de latão. Agora volte para casa.

Conselho de vó: A verdadeira bondade é aquela feita a pessoas que não podem retribuir, este é o verdadeiro tesouro. 

***

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História de Ítalo Calvino

Pocapaglia era uma aldeia tão íngreme, tão íngreme, que os habitantes, para não perder os ovos que rolariam pelos bosques, penduravam um saquinho no rabo das galinhas.

Isso quer dizer que os pocapaglienses não eram tontos como as cidades vizinhas diziam, esta era uma maledicência, somente pelo fato de serem gente tranquila que não gostava de brigar com ninguém.

Quando eram ofendidos, apenas diziam:

– Esperem Masino voltar e vão ver.

Masino era o mais esperto dentre os pocapaglienses e o mais querido de toda a aldeia. Não era mais forte do que os outros, pelo contrário, à primeira vista não se dava um tostão por ele, porém era astuto desde que nasceu.

Sua mãe, assim que ele nasceu, vendo que era tão pequeno lhe deu um banho de vinho quente. Seu pai, para aquecer o vinho, pôs no recipiente em que este se encontrava uma ferradura quente e vermelha como o fogo.

Assim, Masino recebeu através da pele a sabedoria que existe no vinho e a resistência que existe no ferro.

Naqueles tempos, os pocapaglienses aguardavam o retorno de Masino, que havia se alistado como soldado e estava na África.

Um dia, começaram a acontecer fatos misteriosos em Pocapaglia. Todas as tardes, os bois e as vacas eram roubados pela Masca Marcial, uma bruxa, e bastava um sopro seu para fazer o pastor desmaiar e assim roubar os animais.

Os camponeses, ao ouvi-la sussurrar nas moitas após o pôr do sol, batiam os dentes e caíam desmaiados.

À noite, os camponeses começaram a acender grandes fogueiras para que a Masca Marcial não se atrevesse a sair dos matagais. Porém, ela se aproximava sem se deixar notar e roubava as vacas e os bois. Então, saíam todos pelos bosques à procura de vestígios dos animais, mas só encontravam tufos de cabelo, grampos e pegadas deixadas ao acaso.

As coisas continuaram assim durante meses e as vacas, que começaram a ficar trancadas no curral para não serem roubadas, foram ficando cada vez mais magras.

A Masca Marcial não ia roubar nas outras aldeias, pois sabia que gente tranquila e sem vontade de brigar como a de Pocapaglia não havia em lugar nenhum.

Os camponeses, sem saber o que fazer, resolveram pedir ajuda ao Conde, que era o homem mais rico e poderoso do lugar.

O conde morava na parte mais alta da aldeia, num casarão redondo, cercado por uma muralha toda espetada com cacos de vidro. Num domingo de manhã, todos juntos, chegaram de chapéu na mão e bateram nas portas do Conde.

O mais velho dos camponeses tomou coragem e disse:

– Senhor Conde, nós nos atrevemos a vir até o senhor para contar-lhe a nossa desgraça: todos os animais, quando vão ao bosque, são roubados pela Masca Marcial.

O conde ficou mudo.

– E nós viemos aqui — acrescentou o velho — para ousar pedir um conselho à Vossa Senhoria.

O conde continuou mudo.

– E viemos aqui — acrescentou — para ousar pedir a Vossa Senhoria a graça de vir em nosso socorro, pois se nos conceder uma escolta de soldados poderemos levar outra vez ao pasto os nossos animais.

O conde sacudiu a cabeça.

– Se concedo os soldados — disse —, tenho que conceder também o capitão…

Os camponeses escutavam com um fio de esperança.

– Mas, se me faltar o capitão, então, de noite, com quem hei de jogar tômbola?

Os camponeses se puseram de joelhos:

– Ajude-nos, senhor conde, por piedade!

Ao redor, os soldados bocejavam.

O conde sacudiu a cabeça de novo e disse:

– Sou o conde e com a Masca jamais cruzei, garanto que Mascas não existem.

Ouvindo tais palavras, os soldados, sempre bocejando, pegaram os fuzis e botaram os camponeses para fora.

De volta à praça, desanimados, os camponeses já não sabiam o que fazer.

Porém, o mais velho, o que se dirigira ao conde, disse:

– O jeito é fazer Masino voltar!

Assim, escreveram uma carta para Masino e a mandaram para a África.

Certa noite, quando estavam reunidos como sempre em volta da fogueira da praça, Masino reapareceu.

Fizeram festa, deram abraços e beberam vinho em comemoração.

– Por onde andou? – perguntou um camponês.

– O que viu? – perguntou outro.

– Na África vi canibais que, não podendo comer homens, comiam cigarras, no deserto vi um louco que para obter água deixara que as unhas crescessem doze metros, no mar vi um peixe com um sapato e uma pantufa e que pretendia ser rei dos demais, pois nenhum outro peixe tinha sapatos nem pantufas, na Sicília vi uma mulher que tinha setenta filhos e só uma panela, em Nápoles vi pessoas que caminhavam mesmo estando paradas porque as conversas dos outros as empurravam para diante, vi negro, vi branco, vi gente que pesa cem quilos, e gente da espessura de uma folha, vi tanta gente medrosa, porém jamais como em Pocapaglia.

Os camponeses baixaram a cabeça, cheios de vergonha, pois Masino, chamando-os de medrosos, tocara no ponto fraco dos camponeses.

 Mas Masino não queria brigar com seus conterrâneos. Exigiu que lhe contassem todos os detalhes da história da Masca e então disse:

– Agora, faço três perguntas e depois, quando soar meia-noite, irei pegar a Masca e a trarei aqui.

– Pergunte! Pergunte! — disseram todos.

– A primeira pergunta é para o barbeiro. Quantos vieram até você este mês?

E o barbeiro respondeu:

– Todos os cabelos e barbas desta vila viram a minha tesoura.

– E agora para você, sapateiro, quantos levaram os tamancos para consertar, este mês?

– Ai de mim — disse o sapateiro – não há mais dinheiro e não faço nada.

– Terceira pergunta para você, cordoeiro:

– Quantas cordas vendeu este mês?

– Cordas torcidas, cordas fiadas, cordas de palha em tiras e entrelaçadas, de vime e barbante, cordas para poço, finas como agulha, grossas feito braço, moles feito gordura, fortes como o aço, este mês não sobrou um pedaço.

– Já é suficiente — disse Masino e se acocorou junto ao fogo. — Agora, vou dormir duas horas porque estou cansado. Acordem-me à meia-noite e então agarrarei a Masca.

Cobriu o rosto com o chapéu e adormeceu.

À meia-noite, acordaram Masino, que se mexeu, bocejou, bebeu um copo de vinho quente, cuspiu três vezes no fogo e tomou o caminho do bosque.

Os camponeses ficaram esperando até que Masino voltou arrastando o Conde pelas barbas.

– Eis a Masca! — gritou Masino.

O Conde, perante os olhos arregalados de todos os aldeões, sentou-se no chão, encolhido como uma mosca com frio.

– Não podia ser um de vocês — explicou Masino — porque todos foram ao barbeiro e não têm cabelos para perder nas moitas, depois havia aquelas pegadas de sapatos grandes e pesados e vocês andam descalços. Não podia ser um espírito, pois não teria necessidade de comprar tanta corda para amarrar os animais roubados e sumir com eles.

O conde, trêmulo, tentava esconder-se na barba que Masino despenteara e arrancara para tirá-lo do meio das moitas.

– E como é que nos fazia desmaiar com o olhar? — perguntou um camponês.

– Dava-lhes uma paulada na cabeça com um bastão coberto de trapos, assim vocês só ouviam um sopro pelo ar, não lhes deixava marca e os fazia acordar com a cabeça pesada.

– E os grampos que perdia? — perguntou um outro.

– Serviam-lhe para prender a barba na cabeça, como os cabelos das mulheres.

Os camponeses estavam ouvindo em silêncio, quando Masino disse:

– E agora, o que desejam fazer com ele?

– Vamos queimá-lo! Vamos arrancar a pele dele! Vamos amarrá-lo num pau como espantalho! Vamos colocá-lo num barril e fazê-lo rodar! Vamos enfiá-lo num saco com seis gatos e seis cães!

– Piedade! — gemia o Conde com um fio de voz.

– Façam assim. — disse Masino — ele vai devolver os animais e limpar os currais. Visto que gostou de passear pelos bosques à noite, que seja condenado a continuar a passear por lá todas as noites e a juntar feixes de lenha para vocês.

E assim foi feito. Depois Masino saiu pelo mundo afora para suas viagens.

***

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História de Ítalo Calvino

Era uma vez um rei que tinha um filho único a quem muito amava. Mas o príncipe estava sempre descontente. Passava dias inteiros debruçado na sacada a olhar para longe.

— Mas o que lhe falta? — perguntava-lhe o rei. — O que é que você tem?

— Não sei, meu pai, nem eu mesmo sei.

— Está apaixonado?

— Não, papai, não estou apaixonado.

E o rei tentava distraí-lo de todas as formas: teatros, bailes, música, cantos, mas nada adiantava, e a cada dia desapareciam do rosto do príncipe as nuances do vermelho.

O rei publicou um edital, e de todas as partes do mundo vieram as pessoas mais instruídas: filósofos, doutores e professores. Mostrou-lhes o príncipe e pediu conselhos. Eles se retiraram para pensar e depois voltaram à presença do rei.

— Majestade, pensamos, lemos as estrelas e descobrimos o que deve fazer. Procure um homem que seja feliz, mas feliz em tudo e por tudo, e troque a camisa de seu filho com a dele.

Naquele mesmo dia, o rei mandou os embaixadores mundo afora a fim de procurar um homem feliz.

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Levaram-lhe um padre.

— O senhor é feliz? — perguntou-lhe o rei.

— Sim, Majestade!

— Muito bem. Ficaria contente em se tornar o meu bispo?

— Sim, Majestade!

— Não! Você não serve, procuro um homem feliz e contente com a sua condição, que não deseja estar em nada diferente do que está.

E o rei ficou esperando outro. Havia um rei seu vizinho, que era feliz, tinha uma esposa bonita e boa, um monte de filhos, vencera todos os inimigos na guerra, e seu país estava em paz.

Imediatamente, cheio de esperança, o rei mandou que os embaixadores fossem lhe pedir a camisa.

O rei vizinho recebeu os embaixadores e:

— Sim, sim, não me falta nada, porém é pena que, quando a gente tem tantas coisas, tenha que morrer e deixar tudo! Com tal pensamento, sofro tanto que não durmo à noite!

Ele não era totalmente feliz, os embaixadores acharam melhor ir embora.

Para desafogar seu desespero, o rei foi caçar. Atirou numa lebre e pensava tê-la atingido, mas a lebre fugiu mancando. O rei a perseguiu e afastou-se dos que o acompanhavam.

No meio dos campos, ouviu uma voz de homem cantando.  O rei parou e pensou: “Quem canta assim só pode ser feliz!”, e seguindo o canto entrou numa vinha e encontrou um jovem que cantava podando as videiras.

— Bom dia, Majestade — cumprimentou o jovem. — Tão cedo e já pelos campos?

— Bendito seja você, quer que o leve comigo para a capital? Será meu amigo.

— Ai, ai, ai, Majestade, não, não mesmo, obrigado. Não trocaria de lugar com nenhum homem do mundo.

— Mas por que você, um rapaz tão forte…

— Eu lhe digo que não. Estou contente assim e basta.

“Finalmente um homem feliz! ”, pensou o rei.

— Escute, jovem, deve me fazer um favor.

— Se puder, farei de todo o coração, Majestade.

— Espere um momento. 

E o rei, que não cabia mais em si de alegria, correu em busca de seu séquito:

— Venham! Venham! Meu filho está salvo.

E os conduziu até o jovem.

— Bendito jovem, — disse — lhe darei tudo o que quiser, se você me der…

— O que, Majestade?

— Meu filho está à beira da morte! Só você pode salvá-lo. Venha aqui!

O Rei o segurou, e começou a desabotoar o seu casaco, de repente, parou e olhou sem poder acreditar.

O homem feliz não tinha camisa.

***

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