História de Figueiredo Pimentel

Era uma vez um velho Rei chamado Ubaldo que era muito bom e caridoso com o seu povo e com os animais. Mesmo em vida ele já havia recebido o nome de O Bom Rei.

Um dia, enquanto passeava no bosque viu, vindo em sua direção, um coelho que fugia de alguns cães que o perseguiam. O coelho, ao se aproximar, pulou em seu colo buscando socorro.

O Rei acariciou o coelho e disse:

– Já que se colocou sob minha proteção, não deixarei que te façam mal.

E levou o bichinho para o palácio.

À noite, quando já estava em seus aposentos, pronto para se deitar, apareceu-lhe uma moça muito linda, vestida de branco, com os deslumbrantes trajes de princesa real, tendo, em vez de uma coroa, uma grinalda de rosas brancas.

O Rei ficou admirado de vê-la no quarto, porque a porta estava fechada, não entendendo como podia ter ela entrado.

– Eu me chamo Cândida e sou uma fada – disse ela. Estava no bosque e quis ver se você era bom como todo o mundo diz. Por isso encantei-me no coelhinho, e saltei em teus braços. Queria ver se seria bom para os animais, porque sei que quem tem piedade deles, é bom de verdade. Vim te agradecer e te garantir a minha proteção. Pede o que quiseres, que te prometo fazer.

– Linda fada – disse o bom rei – deves saber o que desejo. Tenho um único filho que muito estimo, e por isso lhe dei o nome de Querido. Se quer me conceder alguma graça, seja sua protetora.

– Posso fazê-lo o mais rico, o mais belo ou o mais poderoso dos príncipes. Escolhe o que quiseres para ele.

– Nada disso desejo para meu filho, respondeu o Rei Ubaldo. Ficarei muito agradecido se fizer dele o melhor de todos os príncipes. De que lhe servirá ser belo, rico, poderoso, se for um malvado?

– Tens muita razão, mas não tenho poder para tanto. É preciso que ele trabalhe para ser um homem bom. O que posso prometer é dar-lhe bons conselhos, protegê-lo e repreendê-lo pelas suas faltas.

O soberano ficou satisfeito com essa promessa da Fada Cândida. Alguns meses depois ele faleceu pela idade já avançada.

O príncipe chorou bastante a perda de seu velho pai.

Dois dias após a morte do rei, estando o príncipe Querido deitado, apareceu-lhe Cândida, que lhe disse:

– Prometi a teu falecido pai ser tua protetora e vim cumprir minha palavra fazendo-te um presente.

E no mesmo instante colocou um anel de ouro no dedo do moço, dizendo-lhe:

– Guarda com muito cuidado este anel, vale mais que todos os tesouros da terra. Todas as vezes que fizeres uma ação má, ele espetará teu dedo. Mas, se apesar disso, persistir no mal, perderá a minha amizade e me tornarei tua maior inimiga.

Dizendo estas palavras Cândida desapareceu, deixando o príncipe admirado. Querido conservou-se sensato por muito tempo, a ponto de não sentir o anel espetá-lo nenhuma vez.

Tempos depois, indo à caça, sentiu que o anel o incomodava, mas não fez caso, e como não encontrou nenhum animal para matar, voltou para casa de mau humor.

Entrando em seu quarto, uma cadelinha que possuía, chamada Mimosa, começou a saltar-lhe em frente, festejando e latindo alegremente.

– Vá embora! – gritou o príncipe – hoje não estou disposto a brincadeiras.

A cadelinha, não entendendo o que lhe dizia o príncipe, pulou ainda mais sobre ele para chamar sua atenção.

Isso impacientou o príncipe, que lhe deu um pontapé.

Nesse momento o anel deu-lhe uma ferroada tão forte que parecia alfinete.

Querido ficou muito admirado, e foi sentar-se a um canto do quarto, envergonhado da sua ação.

Ele pensou consigo mesmo: “Afinal de contas, que grande mal fiz em dar um pontapé num animal que me importuna? De que me serve ser senhor de um grande império, se não tenho liberdade de castigar o meu cão?”

Neste momento a Fada apareceu em seu quarto e falou:

– Você foi cruel para um animalzinho que não merecia ser maltratado. Se pensa que vale mais que o pobre cãozinho, pense que eu, que sou fada, podia castigar-te e até te matar, porque sou mais forte e poderosa que você. A vantagem de ser senhor de um grande império não consiste em poder fazer o mal que se quer, mas sim todo o bem que se pode.

O jovem prometeu corrigir-se, mas pouco tempo depois faltou à palavra.

Como o anel o espetava muitas vezes, ficou irritado com aquilo e querendo se ver livre, arrancou o anel e o jogou fora.

Julgou que agora era o homem mais feliz do mundo, e começou a fazer todas as vontades, sem pensar no próximo, de modo que se tornou um homem mau e perverso que ninguém podia aturar.

Meses depois, percorrendo a passeio as ruas da capital, avistou à janela de uma casa de modesta aparência, uma linda jovem, por quem imediatamente se apaixonou.

Essa moça, embora fosse de família pobre, não era ambiciosa, e foi criada com muita honradez por seus pais. O príncipe, porém, imaginou que ela o fosse querer somente por ser o príncipe.

Ele foi a sua casa e falou:

– Qual o seu nome, donzela?

– Me chamo Zélia – respondeu a moça.

Então Querido propôs-lhe o casamento.

Espantada com a brusca proposta e não gostando do príncipe, a quem já sabia da fama de homem mau, a linda jovem recusou.

– Por quê? –  perguntou Querido. Acaso te desagrado? Me acha muito feio?

– Não, príncipe, vejo que é belo. Mas que me serve a vossa beleza, vossa riqueza, se as más ações que eu te visse praticar todos os dias, me forçariam a te desprezar e odiar? – respondeu ela com a máxima franqueza.

O príncipe ficou encolerizado com a ousadia de Zélia em recusar sua proposta. Ordenou que seus soldados a levassem ao castelo e a prendessem nos calabouços.

Ele não conseguia suportar o desprezo de Zélia e foi procurá-la para ver se o castigo a tinha feito mudar de ideia.

Quando entrou na cela ficou enlouquecido por não encontrá-la, queria descobrir quem tinha libertado a moça e como não encontrou suspeito colocou a culpa em Salomão, um pobre velho, amigo de seu pai, que trabalhava no castelo desde antes de seu nascimento.

Quando deu as ordens aos soldados para que matassem Salomão, todos ouviram um trovão que fez tremer o castelo e a Fada Cândida apareceu dizendo:

 – Prometi a teu pai te dar bons conselhos e te repreender se fosse necessário, você se tornou um monstro ao exigir a morte do pobre Salomão que por tantos anos serviu bem ao seu pai, também por encarcerar Zélia que não aceitou se casar com você. De hoje em diante se tornará um monstro por fora assim como é por dentro. Só poderás se salvar se um dia for amado pela sua bondade.

Então a Fada o transformou em um ser com cabeça de leão, chifres de touro, patas de lobo, e cauda de serpente. No mesmo instante ele foi transportado a uma grande floresta à beira de uma fonte, onde se refletia a sua horrível figura.

Dias depois, a fera foi andando pela floresta quando de repente caiu num buraco muito fundo.

Era uma armadilha de caçadores. Eles o capturaram e o levaram engaiolado para a cidade.

Chegando à cidade viu a população em grande festa e percebeu que a festa era por causa da sua destituição do trono. Como não possuía descendentes, a população coroou Salomão como Rei.

Querido se mordeu de raiva ao ver Salomão sendo ovacionado pela população enquanto passava em comitiva pelas ruas da cidade. Desejou matá-lo, destruí-lo.

Então Salomão pediu silêncio as pessoas e falou:

– Aceitei a coroa somente para conservá-la ao príncipe Querido. Ele não morreu, mas só poderá voltar ao lugar de Rei quando provar que seu coração foi transformado.

Estas palavras amoleceram o coração do príncipe.

Em seguida ele foi levado ao zoológico da cidade, para ser exibido como animal exótico.

Desde esse dia Querido começou a ser dócil, não querendo mais matar ou prejudicar ninguém.

No zoológico ficou aprisionado com os leões e sofreu nas mãos de um homem que em vez de cuidar, castigava os animais e percebeu como eram terríveis os seus atos quando príncipe.

Porém, ele sofria os castigos, manso como um cordeiro.

Um dia, por descuido, a jaula do leão ficou aberta e por pouco o cuidador dos animais teria morrido, não fosse Querido que segurou o leão e o salvou.

Neste mesmo instante ele ouviu uma voz:

– Não há uma boa ação sem recompensa.

Nisso, o príncipe foi de súbito transformado num lindo cão.

O domador, vendo aquilo o deixou ir embora do zoológico, como recompensa pela ajuda.

Ele começou a viver nas ruas da cidade, sendo alimentado pela bondade das pessoas.

Certa vez, ele recebeu um pedaço de pão e ia devorá-lo, quando viu uma pobrezinha com fome. Teve pena da pobre mendiga, e lhe deu o pedaço de pão, dizendo consigo mesmo que ele poderia esperar até ganhar outro alimento.

Nesse mesmo instante ouviu uma voz:

– Não há uma boa ação sem recompensa.

Imediatamente foi transformado em um lindo pássaro azul.

Um dia, voando pela cidade, viu Zélia em um bosque. Querido voou ao seu ombro, e começou a fazer festa.

Zélia ficou encantada pela mansidão do pássaro, correspondeu às carícias e então, todos os dias os dois se encontravam no bosque.

Querido estava muito feliz em poder estar com ela e de sentir seus carinhos.

Um dia, quando ia para o bosque, viu Zélia conversando com uma senhora idosa.

Voou para o seu ombro e Zélia falou:

– Amo tanto este pássaro!!!

Nesse instante o pássaro se transformou no príncipe Querido. A senhora se transformou na Fada Cândida e disse:

– Está quebrado o encanto, príncipe. Só voltarias à tua forma humana no dia em que fosse amado pela sua bondade. Ela acabou de dizer que te ama. Vou te conduzir ao teu reino, onde está à tua espera o mais leal dos vassalos, o velho Salomão. Confia nele, que é o teu segundo pai. Segue sempre os seus conselhos e não te arrependerás.

O príncipe Querido se transformou em um grande Rei e a Fada cumpriu o desejo de seu pai.

Zélia aceitou se casar com Querido e eles foram felizes para sempre.

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