A Rainha da Neve – parte 7

História de Hans Christian Andersen

O PALÁCIO DA RAINHA DA NEVE

Tudo no palácio era feito de neve e gelo. Havia centenas de quadros iluminados pelas fortes luzes boreais.

Gerda entrou no castelo e ele estava completamente vazio. Não havia nenhuma alegria naquele lugar. Não havia música, nem brincadeiras, nem mesmo as fofocas comuns em palácios na hora do chá.

Imenso, vasto e frio eram os salões da Rainha da Neve. As luzes do Norte iam e vinham com tamanha regularidade que era possível contar os segundos entre as idas e vindas. No meio desses infindáveis salões havia um lago congelado.

A superfície estava quebrada em milhares de pedaços, mas cada um era tão parecido com o outro que formavam uma obra de arte perfeita.

A Rainha da Neve sentava-se bem no meio dele quando estava em casa.

O pequeno Kay estava azul de frio, mas ele não sabia, pois, a Rainha da Neve o havia batizado com cacos de gelo, e seu coração estava um pouco melhor que uma estalactite.

Ele perambulava, puxando pedaços afiados e lisos de gelo que se encaixavam em toda sorte de formatos. Era como um quebra-cabeças.

– Agora irei voar para os países quentes, preciso levar um pouco de frio para estes lugares, quero espiar os caldeirões de fogo e embranquecê-los um pouco – informou a Rainha, se referindo aos vulcões Etna e Vesúvio.

Kay ficou sentado e sozinho no meio daqueles infinitos e vazios salões de gelo. Olhava para os pedaços de gelo e pensava. Sentou-se tão rígido e imóvel que alguém poderia pensar que ele havia morrido congelado.

Foi quando a pequena Gerda entrou no Palácio, através das enormes portas, com um vento cortante. Ela rezou sua oração favorita e o vento cessou como se embalado para dormir.

Andou pelo grande salão vazio e viu Kay, reconhecendo-o rapidamente. Envolveu-o com seus braços, apertando-o com firmeza, e gritou:

– Kay, pequeno Kay! Enfim consegui te encontrar!

Mas ele continuou sentado, rígido e frio.

A pequena Gerda derramou lágrimas quentes, elas caíram sobre o peito de Kay e penetraram em seu coração. Lá, derreteram a pedra de gelo e dissolveram um pouco do espelho que estava lá dentro. Ele olhou para ela e Gerda falou uma parte da oração:

— Onde rosas cobrem o vale florido, lá, Menino Jesus, que te aclamamos!

Ela chorou e orou muitas vezes até que Kay explodiu em lágrimas. Chorou tanto que os grãos do espelho que estavam em seus olhos e em seu coração saíram.

– Gerda, minha pequena Gerda! Onde esteve durante esse tempo todo? Onde eu estive?

Ele olhou ao redor e disse:

– Como está frio aqui, e como é vazio!

Kay continuou segurando Gerda, que ria e chorava de alegria.

A alegria deles era tão celestial que até os pedaços de gelo dançavam alegres ao seu redor.

Gerda beijou suas bochechas e elas ficaram rosadas. Beijou seus olhos, e eles brilharam como os dela. Beijou suas mãos e seus pés, e Kay ficou são e forte. A Rainha da Neve podia voltar para casa a qualquer momento, Kay estava livre agora, nada mais o prenderia naquele lugar.

Eles se deram as mãos e caminharam pelo grande Palácio.

Falaram da avó e das rosas no telhado. Onde quer que fossem, o vento estava calmo e o sol passava pelas nuvens. Quando chegaram aos portões do castelo, encontraram a rena que havia trazido outra rena consigo, mais jovem e com o úbere pleno. As crianças beberam seu leite quente e se sentiram mais fortes e aquecidos.

Os animais carregaram Kay e Gerda primeiro para a mulher finlandesa, em cuja cabana se aqueceram e receberam direções para voltar para casa. Depois, até a casa da primeira mulher, que tinha novas roupas para eles e lhes preparara um trenó.

As renas foram ao lado dos amigos até que estivessem em terras mais quentes.

Lá, apareciam os primeiros botões verdes e as crianças deram adeus às renas. Ouviram os primeiros filhotes de passarinhos piando. Da floresta surgiu uma jovem garota num cavalo bonito, que Gerda conhecia. A moça tinha um chapéu escarlate na cabeça e pistolas no cinto, era a pequena ladra, que crescera e se cansara de ficar em casa. Estava cavalgando para o norte para ver o que acharia de lá antes de ir para as outras partes do mundo. Ela os viu, reconheceu Gerda e falou a Kay:

– Você é um belo rapaz para sair perambulando por aí, estava curiosa para saber se você vale tanto assim para ter alguém como Gerda correndo até o fim do mundo atrás de você.

A pequena ladra prometeu que se passasse pela cidade deles, iria visitá-los.

Depois desse encontro eles foram até o castelo da princesa e lá ficaram por um tempo. Souberam que o corvo havia morrido, de velhice.

O tempo havia passado muito rápido em todos os lugares, menos para Gerda e Kay. Curioso.

Kay e Gerda continuaram andando de mãos dadas e aonde quer que fossem, sempre encontravam a mais prazerosa primavera e flores brotando. Logo, reconheceram a cidade grande onde moravam, com todas as torres altas, nas quais os sinos ainda dobravam estrondosos e alegres. Foram direto para a porta da avó, subiram as escadas e entraram no quarto.

Tudo estava como eles haviam deixado, mas a avó já havia morrido. Ao passarem pela porta, perceberam que agora eram adultos. As rosas se entrançavam ao redor da janela aberta.

Eles se sentaram e ficaram de mãos dadas olhando para tudo com alegria. Crescidos, mas ainda crianças no coração.

Era um quente e belo verão.

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