Princesa Finola e o Anão

História de Edmund Leamy

Há muitos anos, havia uma cabana em um local descampado e isolado, nela viviam uma senhora e uma moça. A senhora era amargurada e ignorante, a menina era doce, bonita e seu nome era Finola.

A cabana era feita de galhos entrelaçados e parecia uma colmeia, no centro havia uma fogueira que queimava o ano todo, mesmo sem ser cuidada por ninguém, no inverno mantinha tudo quente e no verão somente irradiava luz.

Finola era uma princesa, mas não sabia disso.

Fora da casa, tudo era desolado e triste, por quilômetros não cresciam árvores, flores e não havia nenhum sinal de qualquer ser vivo.

A única outra pessoa que Finola via, além da senhora, era um anão mudo que, montado em um cavalo capenga, ia uma vez por mês à casinha, levar suprimentos às duas.

A moça sempre ficava muito feliz quando o anão a visitava apesar de não conseguir conversar com ele.

O anão amava a princesa mais do que tudo e morreria por ela se fosse preciso.

Certa vez, logo após fazer uma visita às duas, quando voltava, foi surpreendido por uma voz dizendo:

– Está na hora de você ir.

O anão então viu que bem à sua frente havia um homenzinho, com metade da sua altura, vestido com um casaco verde e capuz e botas vermelhas.

— Está na hora de você ir – disse novamente – desça do cavalo e venha comigo.

O anão fez o que o homenzinho mandou e o seguiu até a um buraco, na encosta de um monte.

O buraco era tão pequeno que ele teve que se espremer para passar, depois, já dentro da caverna, percebeu que estava do mesmo tamanho do pequeno duende. Andaram um pouco e chegaram a uma esplêndida sala, clara como o dia.

– Puxe uma cadeira e se sente, vou pedir a varinha mágica, então você poderá falar novamente – disse o duende.

O anão se sentou e o duende tocou um sininho, um homenzinho do tamanho de uma mão entrou na sala e o duende falou:

– Traga-me a varinha.

O pequenino se curvou três vezes e saiu, um minuto depois voltou trazendo uma varinha preta com uma frutinha na ponta e, ao entregá-la ao duende, fez uma reverência três vezes e saiu de costas, como tinha feito antes.

O duende tocou a varinha no ombro esquerdo do anão, depois no direito e então em seus lábios.

– Fale! – ordenou o duende.

O anão falou qualquer coisa e ficou tão feliz ao ouvir a própria voz que dançou pelo salão.

– Quem é você, afinal? — falou ao duende.

– Venha, vamos comer primeiro.

Eles se sentaram à mesa, comeram e beberam alimentos servidos pelo pequenino homem.

– Você me perguntou quem sou? — falou o duende.

– Perguntei — disse o anão.

– Então eu te pergunto. Quem é você?

O anão corou como uma rosa, não sabia o que dizer, não se lembrava de nada do seu passado.

Sua lembrança mais antiga era do dia em que foi escolhido pelo um rei para ser responsável por levar provimentos a uma senhora e uma moça que moravam numa cabana isolada.

– E então, você se apaixonou por Finola — disse o duende, piscando para o anão.

O pobre anão corou duas vezes mais do que antes.

– Diga-me com sinceridade: O que faria para libertá-la do encantamento que a mantém presa àquela cabana?

– Eu daria minha vida.

– Bem, nesse caso, ouça. A Princesa Finola foi banida para a cabana isolada pelo rei. Ele matou o pai dela, que era o rei por direito, e queria ter matado Finola, mas uma velha feiticeira disse que se ele a matasse, ele próprio morreria no mesmo dia. Ela o aconselhou a mandá-la para aquele lugar e fez um feitiço para que lá ela ficasse presa. O rei se encarregou de encontrar alguém para levar alimento às duas e você foi o escolhido.

– Já que você sabe tanto, pode me dizer quem sou e de onde vim? – falou o anão.

– Você vai saber disso em breve. Eu devolvi sua fala. Depende apenas de você recuperar a sua memória, de quem é, e do que você era antes do dia em que começou a trabalhar para o rei. Mas está mesmo disposto a tentar quebrar o feitiço de encanto e libertar a princesa?

– Estou – disse o anão.

– Custe o que custar?

– Sim, mesmo que custe minha vida. Mas, me diga, como o feitiço pode ser quebrado?

– Ah, é bem fácil quebrar o feitiço se você tiver as armas apropriadas — disse o duende.

– Quais são e onde estão? — perguntou o anão.

– A lança de cabo reluzente e o escudo de prata. Estão na ilha que fica no centro do Lago Místico. Estão ali à espera do homem que seja corajoso o suficiente para encontrá-los. Só terá que bater no escudo três vezes com o cabo e três vezes com a lâmina da lança, então o feitiço de encantamento será removido e a princesa será libertada.

– Vou partir de uma vez – disse o anão, levantando-se da cadeira.

– Você fará isso custe o que custar? Você aceita pagar o preço?

– Aceito.

– Bem, então, monte no cavalo e vá até o lago Místico, a ilha é protegida por corcéis d’água que a protegem dia e noite. Eles te deixarão passar se você pagar o preço.

– Qual o preço?

– Você saberá na hora certa. Você deverá esperar até que as águas estejam tintas como o vinho, então poderá passar sem ser atacado.

O anão partiu e depois de um dia de viagem chegou às margens do Lago Místico.

O velho cavalo, desgastado pela longa e árdua viagem, deitou-se, e o anão estava tão cansado que rolou de barriga para cima e adormeceu ao lado do animal.

Ele acordou ao amanhecer e viu a ilha à sua frente, a princípio não viu os corcéis, mas ao se aproximar do lago, os viu nadando e saltitando na água. Eles bufavam de forma terrível e deixaram o anão assustado.

Enquanto observava os corcéis, foi surpreendido ao ver que ao seu lado estava o pequeno duende segurando uma harpa com uma das mãos e dedilhando as cordas com a outra.

– Está pronto para pagar o preço? — perguntou o duende.

– Sim – respondeu o anão ouvindo os corcéis d’água relincharem mais furiosamente.

– Está pronto para pagar o preço? — perguntou uma segunda vez.

– Sim.

A água espirrada, lançada pelos corcéis irados, encharcou o anão, e isso fez com que ele estremecesse até os ossos.

– Pela terceira e última vez, está pronto para pagar o preço?

– Sim, estou pronto. Qual o preço?

– Seu olho direito.

E antes que o anão pudesse dizer algo, o duende arrancou o olho com o dedo e o enfiou no bolso. O anão sofreu uma dor horrorosa, mas suportou-a pelo bem da princesinha.

Então, o duende se sentou em uma rocha à beira do lago e começou a tocar uma canção na harpa. O som se espalhou pelas águas.

Logo, o anão viu o que pensou ser uma nuvem escura atravessando o céu, do leste ao oeste. Parecia ficar maior conforme se aproximava mais e mais, e quando estava bem acima do lago, viu que se tratava de um pássaro enorme. Era um dos Corvos-marinhos dos Mares Ocidentais.

Ele viu que a ave trazia uma grande árvore em suas garras, os galhos estavam tomados por frutinhas vermelhas maduras e então, o grande pássaro começou a comer as frutinhas e jogar suas sementes na água. Conforme caiam, as águas começaram a se tingir de vermelho vivo.

O anão pode então atravessar o lago por sobre as águas e chegar à ilha Mística.

Depois de procurar pela ilha, ele encontrou o escudo e a espada, bateu no escudo três vezes com o cabo da lança e três vezes com a lâmina, nesse momento uma luz irradiou iluminando tudo à sua volta.

O anão percebeu que seu velho cavalo era agora um grande alazão e, ele mesmo, não era mais um anão, mas sim um cavaleiro, sua visão do olho arrancado se recuperou e ele então se lembrou de toda a sua vida. Lembrou-se de seu nome, Conal, e do feitiço que o deixou mudo. Recordou que ele e Finola se amavam e teriam se casado, se não fosse o feitiço que os separou.

Colocou então as rédeas no pescoço do cavalo e, mais rápido do que o vento, o belo animal seguiu galopando. Não demorou muito para que chegasse à cabana isolada. Nos pontos onde as patas do cavalo batiam no chão, grama e flores surgiam, e grandes árvores com galhos frondosos apareciam por todos os lados.

Por fim, o cavaleiro chegou à casinha. Finola o estava esperando. O cavaleiro a pegou nos braços e a beijou, em seguida, a colocou no cavalo e juntos saíram daquele lugar.

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