A menina e a garrafa de leite

Fábula de Monteiro Lobato

Laurinha, no seu vestido novo de pintas vermelhas, chinelos de bezerro, treque, treque, treque, lá ia para o mercado com uma garrafa de leite.

Era o primeiro leite da sua vaquinha mocha. Ia contente da vida, rindo-se e falando sozinha:

— Vendo o leite e compro uma dúzia de ovos. Choco os ovos e, antes de um mês, já tenho uma dúzia de pintos. Morrem… dois, que seja, e crescem dez: cinco frangas e cinco frangos. Vendo os frangos e crio as frangas, que crescem, viram ótimas botadeiras de duzentos ovos por ano cada uma. Cinco mil ovos! Choco tudo e lá me vêm quinhentos galos e mais outro tanto de galinhas. Vendo os galos. A dois cruzeiros cada um, duas vezes cinco, dez… Mil cruzeiros…! Posso então comprar doze porcas de cria e mais uma cabrita. As porcas dão-me, cada uma, seis leitões. Seis vezes doze…

Estava a menina neste ponto quando tropeçou, perdeu o equilíbrio e, com lata e tudo, caiu um grande tombo no chão.

Pobre Laurinha! Ergueu-se chorosa, com um ardor de esfoladura no joelho; e enquanto espanejava as roupas sujas de pó viu sumir-se, embebido pela terra seca, o primeiro leite da sua vaquinha mocha e com ele os doze ovos, as cinco botadeiras, os quinhentos galos, as doze porcas de cria, a cabritinha — todos os belos sonhos da sua ardente imaginação…

Conselho de vó: Sonhe alto, mas não deixe o sonho te distrair do presente.

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